Vila Praia de Mancora

O senhor que viaja ao meu lado quer conversa mas eu não estou muito para aí virado. Por um lado, quero aproveitar a viagem para dormir e, por outro, quero poder preocupar-me à vontade com a chegada a Mancora, no Peru. Fiz mal as contas aos horários e tempos de viagem e, em vez de chegar às 8:00 da manhã, conforme tinha estimado, vamos chegar às 2:00, o que não é uma boa hora para chegar a lado nenhum, principalmente sem ter sítio para dormir.

Numa cidade grande, embora provavelmente mais perigoso, seria fácil pedir a um taxista para me levar a um hotel razoável. Mais dólar menos dólar, o assunto ficava resolvido. Mas, em Mancora, nem tenho a certeza que vá sequer encontrar sítios abertos. O ponto positivo é que já conheço aquilo, de uma viagem que fiz o ano passado em férias, por isso não estou totalmente às escuras e sei, mais ou menos, a que portas ir bater.

Em todo o caso, penso nas alternativas. Às vezes nem sei porque penso tanto nas coisas já que, na hora de decidir, é raro responder com a cabeça. Acho que o meu “pensar” é apenas um meio de inserir informação no corpo para, quando chegar o momento, ele ter formas de decidir depressa, no momento, de uma forma muito mais instintiva do que racional. Os meus chefes, há excepção de um, não se fiavam muito nisso e pediam-me sempre muitas análises e apresentações de Powerpoint. É compreensível.

Posso seguir viagem até Piura, o destino final do autocarro, e daí voltar para trás. É uma opção muito pouco eficiente mas, pelo menos, posso ir a dormir e, quando regressar a Mancora, já chego a horas decentes. Por outro lado, tenho ideia que há um posto de Polícia no pueblo. Na pior das hipóteses, enfio-me lá dentro ou sento-me à porta à espera que amanheça. Ou no Las Olas, lembro-me que tinha segurança. Se ele me deixar entrar, posso deitar-me naquelas almofadas grandes que há no chão. Bem, não há-de ser nada. Vou tentar dormir e quando chegarmos logo vejo.

Rio-me, mais uma vez, do controlo nos postos fronteiriços. Agora tenho a certeza que o ónus de mostrar o passaporte está do lado dos passageiros! Acho, no mínimo, estranho, uma vez que estamos na principal fronteira Equador-Peru, em plena estrada Panamericana, a meio da noite. Divirto-me com os papelinhos da Emigração. No do Equador, pus “Astronauta” como profissão. No do Peru, como estava a entrar e não queria problemas, resolvi ser 100% sincero e tive que deixar alguns campos em branco, o que causou alguma estranheza ao oficial.

– Qual é a sua ocupação, senhor?
– Neste momento, não tenho.
– Quanto tempo vai ficar “en el Peru”?
– Pois, não tenho a certeza. Duas ou três semanas, mais ou menos.
– E qual a sua direcção enquanto estiver no país?
– Não sei, senhor. Vou estar a viajar para Sul e vou dormindo onde calhar.

Põe-me o carimbo e escreve “30” no espaço para os dias de autorização de permanência. Pergunto-me, mais uma vez, se aquiles papéis servem para alguma coisa! Uma vez, à entrada na Austrália, vindo da Nova Zelândia, pus a cruzinha no “Sim” quando perguntavam se tinha estado perto ou em contacto com animais em zonas rurais. Entraram em pânico! É óbvio que estive, aquele país é só campo e tem vacas e ovelhas por todo o lado! Adiante.

A hospedeira do autocarro acorda-me a dizer que já estamos em Mancora. Desço juntamente com outro rapaz, que também viaja com pranchas, e pergunto-lhe se é da terra ou se tem sítio para dormir. Diz que não, mas que a hospedagem em frente é de um amigo dele. Pega no telemóvel e faz uma chamada “push-to-talk”.

– Tens dois “chicos” à porta de tua casa, à procura de uma cama.

Afinal já são 4:00 da manhã e o nosso anfitrião vem à porta receber-nos. Parece ser boa pessoa e abre-me a porta de um quarto muito modesto com três camas. Ainda pergunto o preço, como se àquela hora fosse procurar mais alguma coisa ou tivesse medo que ultrapassasse o meu orçamento. É a força do hábito.

– Diez, no mas – diz-me encolhendo os ombros.
– Dez dólares, ok obrigado.
– No, no! Diez soles (2,5 Euros).

O quarto, de repente, parece-me um luxo! Diz-me que descanse e que mais tarde fazemos contas. Além de alugar quartos e pranchas, o Walter também leva o pessoal a surfar para outros sítios perto e, no dia seguinte, combinamos ir tentar apanhar umas ondas em Lobitos.

Mancora não é mais do que 1 km estreito de estrada Panamericana junto à costa, com pequenos hotéis e restaurantes de um lado e uma boa praia no outro. O trânsito é infernal, com uma mistura de tuk-tuks locais, autocarros de passageiros e camiões de mercadoria. É um destino turístico conhecido e barato, o que pode significar (como agora) alguma lotação. À noite, a música dos bares e os berros dos bêbados ouve-se até tarde… e os camiões não deixam de passar e apitar! Dentro de água, olha-se para trás e, em vez de encontrar uma floresta densa de palmeiras ou outras árvores exóticas, como nos países da América Central, o cenário é desolador, de areia e deserto seco. A onda é muito inconstante porque precisa de um swell grande para quebrar e, muitas vezes, tem que se ir surfar mais para Sul, onde a água já é bem fria e o vento corta a cara. Pensando bem, isto não vale nada! ;)

Mas, como vos disse, a minha cabeça serve pouco para pensar… e há qualquer coisa neste país que me faz sentir bem. Gosto disto! E até vou beber uma Inca Kola, o refrigerante local que destrona a Coca-Cola e que sabe a chiclet do Epá!

 

 

   
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