Última etapa, uma lição para a minha vida

Machu PicchuDormimos 30 minutos certos e, depois de trincarmos uns rebuçados e chocolates, voltámos ao caminho. Já estava mais plano, mais agradável de se percorrer, por encostas magníficas que infelizmente estavam muito nubladas. Passo a passo acelerado percorremos todo o trajecto com um ritmo alucinante. Sempre que chegávamos a um local de interesse parávamos com o meu pretexto de tirar fotografias. A verdade é que Inka tinha uma preparação física sublime. Realizava o caminho todas as semanas nos últimos dois anos e algumas vezes realizava-o duas vezes por semana. Trabalhava com diferentes agências e revelou-se uma companhia com uma forca física e psicológica notável.

Passamos o Inka Tunnel e os pés continuavam a bater com forca nas pedras duras que durante séculos dormiam naquele mesmo local. Tinham sido levadas para ali por homens magníficos que um dia decidiram fundar um império outrora ocupado por outras povoações como os Aymaras. Dos Aymaras quase não há registo mas a verdade é que os Incas fizeram exactamente a mesma coisa, alguns séculos antes, que os inimigos vieram repetir sob a égide do famoso conquistador espanhol Francisco Pizarro. A história é cíclica e repete-se mas todos os seres humanos têm a memória curta e os maus da fita continuam, ao olhar dos críticos do mundo, a ser os
colonizadores recentes. Mas o mundo está feito destas injustiças, que tendem a ser justas por serem cada vez mais normais nos nossos dias e, por isso, inspirado pela magia e a energia de um espaço fabuloso chamado Machu Picchu, continuei a caminhar.

O final foi extremamente desgastante. Assumi uma atitude egoísta e pus-me a ouvir musica. Deixei de falar. Na verdade estava muito cansado e queria apenas concentrar-me no meu passo. Um passo no sítio errado seria o desperdiçar de uma energia essencial para o passo seguinte. Perdi algumas paisagens por estar a olhar para o chão mas o tempo limitado pela luz do dia exigia que eu caminhasse com uma cadência rápida e certa. Não cheguei a pensar em desistir. O meu orgulho não o permitiu, acho eu. A verdade é que, uma hora antes do previsto, chegámos a Wiñawayna. Era o lugar onde me iria separar se Inka. Wiñawayna conta com um hotel a preços exorbitantes e é o local de dormida para quem faz o caminho Inka em dois dias desde o km 104 do caminho de ferro. Estava cheio de turistas. Depois de Inka ter visto que não tínhamos lugar marcado para acampar entramos e bebemos um sumo de laranja, oferecido por mim e que me custou os olhos da cara! Para ajudar a estupidez ainda comprei um maço de tabaco. Já não fumava há uns dias e decidi recomeçar exactamente naquele local. Arranjámos um local para a tenda e Inka disse que não tinha comida para o jantar. Recusei-me a pagar um jantar no restaurante porque era extremamente caro e depois de algumas negociações com as expedições no local protagonizadas pelo Inka voltei a comer arroz com frango. Deitei-me ainda não deviam ser 19h. Estava nublado e embora ainda não tivesse chovido rezava para que o dia seguinte estivesse claro para tirar umas fantásticas fotografias do Machu Picchu. Este era o local onde eu e Inka nos íamos separar. Ele não podia entrar no Machu Picchu porque os carregadores não têm bilhete, por isso descia encosta abaixo na manhã seguinte para apanhar o comboio rumo a Cusco. E eu seguiria rumo ás ruínas mais famosas da América.

Os bilhetes para entrar no Machu Picchu são extremamente caros mas o local merece essa contrariedade. Para quem vem do caminho Inka o preço é de 30 dólares. Para os turistas mais vulgares e menos aventureiros a quantia a pagar fica pelos 50 dólares. Acho justo. Afinal tinha andado uns tantos kms para chegar aquele local. Não era certamente igual aos outros que entravam pela arranjada porta principal. Às 4h despertei e acordei o Inka. Arranjei as coisas, comi dois pães e pus mais dois pães no bolso, bebi um mate, pus folhas de coca na boca para mascar, despedi-me com um abraço, deixei-lhe uma gorjeta, e parti rumo à cidade perdida. Alguns partiam ao mesmo tempo. Estava noite cerrada e no céu apenas as 3 Marias bem no centro da constelação de Orion. Já as vejo desde o primeiro dia que comecei a viajar. É a única constelação que consigo sempre visualizar. Quem serão estas 3 Marias que me perseguem por todo lado? Nem no Peru me deixam sossegado? Acho que já sei quem são.

Mas, voltemos ao assunto. Amanhecia lentamente mas não se via o nascer do sol. Estavam muitas nuvens e estava com medo de não poder tirar fotografias. Cheguei a Intipata, ruínas de onde se contempla, pela primeira vez, o Machu Picchu, e senti-me comovido. Mais abaixo estava a cidade que durante dias sonhei. Não só durante este caminho mas durante muito tempo da minha ainda curta vida. A cidade apresentava-se magnífica. Envolta numa névoa mística. Libertava uma energia que consegui sentir e assimilar. Abandonei o local de contemplação por ter muitos turistas e segui um pouco mais para a frente. Sentei-me a ouvir música dos Andes gravada pelo André e a contemplar, contemplar e contemplar. Não estava simplesmente a ver. Estava a olhar toda aquela imensidão que se abria à minha frente. Era simplesmente magnífico, mágico. E estava ali para eu contemplar e usufruir. Lindo!!! Sentia-me pequeno perante tanta grandeza e grande por ter conseguido chegar ali. A energia depositava-me confiança em mim próprio e fazia-me recordar todas as pessoas que pareço deixar para trás. Infelizmente nada do que estava a viver poderia partilhar. Não havia ninguém a quem abraçar para comemorar ou simplesmente dizer “Conseguimos!!!”. Não, não havia ninguém. Aquilo era tudo meu e só meu. Que injustiça!

Desci o caminho pausadamente para usufruir com a calma que o local exigia. A 2.400 metros o ar parecia diferente. Inspirava um ar mais puro, mais fresco. Sentia-me fisicamente cansado mas com um sorriso nos lábios do tamanho do mundo. O meu coração parecia querer dizer que este era um dos grandes momentos da minha vida. E era-o com toda a certeza. Tinha alcançado mais um objectivo. Um objectivo no meio de tantos outros objectivos pelos quais ainda vou ter de lutar durante a vida. Machu Picchu dizia-me que eu era capaz e eu sentia-me imensamente bem.

   
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1 comentário em “Última etapa, uma lição para a minha vida

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