Surf no pé

Surf no pé
Torquay, Austrália
18 Setembro 2007

Três dias antes de partir para esta viagem, tive a oportunidade de estar algum tempo à conversa com o Pedro Martins de Lima, o primeiro surfista português, durante a etapa do campeonato nacional de surf em Matosinhos.

O Pedro é um conversador nato e ficou muito entusiasmado com a minha viagem. Quis dar-me contactos de amigos na Austrália e na Ásia, pediu-me para lhe ligar na véspera para se despedir, etc.

– Gostava de ter tido coragem para fazer o mesmo na altura certa. Não te vais arrepender, de certeza! – disse-me do fundo da sua sabedoria.

Nesse dia contou-nos uma história que, acredito eu, não se importará que partilhe aqui para efeitos de entretenimento puro.

Um certo dia, quando trabalhava numa empresa que dependia de uma multinacional inglesa, o CEO inglês veio visitar as instalações de Portugal e, naturalmente, estava tudo em pulgas e preparado para fazer grandes apresentações e todas aquelas coisas que, muitas vezes, se fazem precisamente para “inglês ver”.

Nesse dia estavam boas ondas e o Pedro tinha aproveitado a hora de almoço para ir fazer um surfezinho mas, no regresso, apanhou muito trânsito e acabou por chegar ligeiramente atrasado à reunião. O suficiente para estarem todos sentados à espera dele.

– Sir, este é o nosso activo Director de Marketing – apresentou o Director Geral quando o Pedro entrou na sala.

Ao inclinar-se para cumprimentar o CEO, sentado do outro lado da mesa de reuniões, um jorro de água salgada caiu do nariz do Pedro em cima da mesa.

– Peço desculpa, – disse enquanto limpava a água com a manga do casaco – mas esta é a prova de que o nosso Director não estava a mentir quando me chamou de “activo Director de Marketing”. É que, em vez que ir encher a barriga com coisas que fazem mal à saúde, aproveitei a hora de almoço para ir fazer um pouco de surf.

Com a sua desenvoltura e elegância, o Pedro tornou uma situação que podia ser embaraçosa num momento descontraído e, segundo conta, a reunião foi um sucesso.

Alguns meses mais tarde, quando teve que se deslocar a Inglaterra em trabalho, o Pedro cruzou-se com o CEO à saída do edifício sede da empresa, enquanto ele “esperava o motorista do Rolls Royce”. Com algumas dúvidas se este se lembraria dele e à espera de algumas perguntas sobre volumes de negócios e taxas de crescimento, decidiu aproximar-se e cumprimentá-lo. Curiosamente, a reacção e a única pergunta do sério e formal CEO inglês foi a seguinte:

– Olá! Está bom? Claro que me lembro de si. E que tal, tem feito muito surf?

Eu levei muitas vezes a prancha dentro do carro para o trabalho. E fui muitas vezes fazer surf à hora do almoço. Também faltei a muitas aulas no secundário e na universidade… mas isso não é para aqui chamado agora!

Aquela prancha no meio dos bancos do carro e o cabelo molhado ou o sal nas sobrancelhas não enganavam ninguém nas reuniões de início de tarde. E, sejamos sinceros, não era propriamente uma imagem que jogava a favor de um jovem profissional dedicado.

Na Austrália, o surf está totalmente enraizado na cultura e na forma de vida das famílias. É o futebol do Brasil! A prancha tanto anda na caixa aberta do canalizador como dentro do jipe BMW do Director Comercial. E, muitas vezes, na carrinha da mãe dona de casa! Toda a cultura de mar e de tudo o que é vida outdoor impressiona qualquer mente que já se esqueceu de que a vida é muito mais do que as quatro paredes do escritório e um ecrã de computador.

É uma sociedade onde, pela minha visão de liberalista compulsivo, as regras, a vigilância e as penalizações já pisam um bocado a linha da liberdade individual (num sentido lato) e onde as pessoas se tornaram demasiado elitistas e pouco tolerantes com quem “pensa por si” e deseja fazer as coisas de forma diferente.

Mas, tenho que admitir, estes “meninos de coro” conseguiram fazer desta ilhota, que os ingleses tiveram a amabilidade de lhes deixar, um bom lugar para viver.

Todas as moedas têm duas faces… e, às vezes, venha o Diabo e escolha! Eu, para já, escolhi antecipar alguns dias a ida para a Indonésia. Além de poupar alguns dólares, a verdade é que sinto falta do calor e da água quente. E, porque não admitir, de alguma agitação e desordem!

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1 comentário em “Surf no pé”

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