
Pela primeira vez na história mundial, em 2009 a população urbana ultrapassou a rural (os povos movem-se para as cidades) mas, simultaneamente, algumas cidades despovoam-se, como o Porto e Valparaíso. A ONU explicou que a sustentabilidade futura passa por comunidades locais mais “auto-suficientes”, conseguindo o “local empowerment”, tornando-se capazes de produzir grande parte do que consomem, alimentos ou ar puro. Os críticos internacionais, dizem que se devem “maximizar as oportunidades” da globalização e “minimizar os seus riscos” (os impactos negativos).
Tudo isto está ligado à ideia de “identidade”, o que nos distingue cultural, natural e socialmente, e possibilita que a Terra seja “bio-diversa”. A língua, arquitectura, espécies e paisagens naturais, são exemplos das diferenças identitárias. A globalização ameaça-as. A mobilidade crescente, o turismo, permitiu que as pessoas chegassem a lugares únicos, com marcas identitárias fortes, instalando-se, e por vezes, anulando aquilo que as atraiu. Na evolução das espécies, a extinção (e o surgimento de espécies novas) faz parte dos ciclos normais, “naturais” dos ecossistemas. A “reciclagem” entre culturas também as substituiu lentamente – há menos budistas, os muçulmanos espalham-se. O problema é que agora, tudo muda mais rápido.
Tenho que projectar um parque “eco-cultural” (com biblioteca, museu, quinta biológica, etc) em Laguna Verde, um terreno a sul de Valparaíso. São vários hectares declarados Santuário da Natureza, uma escarpa sobre o mar, que foi usada como lixeira pelos habitantes de Valparaíso, mas a imponência natural ainda sobrevive.
A cidade de Valparaíso tem muitas carências: despovoamento (para a vizinha Viña del Mar), falta de classe média-alta, altas taxas de desemprego, delinquência, miséria e, pior de tudo, faltam recursos. Mas “identidade” têm-na, e muito enraizada (o calão, os mitos porteños contados nas tabernas, a vida de bairro, a hospitalidade, a arquitectura comprovam-no). Talvez por isso, seja complicado suscitar o interesse cidadão por um parque urbano, onde se gastarão recursos que não dão grandes lucros. A cultura urbano-portuária é tão forte que é difícil ver as vantagens de um espaço verde. Aparentemente, ele não resolverá os problemas económicos e sociais.
O Chile, apesar de colonizado, manteve intactas grandes extensões de natureza. Com a urbanização do território e mundialização dos modos de vida (dos “green”, “light”, “eco”e “bio”), pensa-se sobre o “verde” que vai sobrando, para onde se expandirão as cidades, onde vão brincar as crianças, etc. Diz-se que um dia Santiago e Valparaíso se vão fundir. Torço para que não se cometam erros semelhantes aos de Portugal, que foi tão edificado, que a oferta de habitação é superior à procura, dando para alojar todos os sem abrigo do País. Quem pagou foi a paisagem.
Actualmente, os que melhor utilizam este terreno são um casal de hippies argentinos, que vivem numa tenda com cães e vista desimpedida sobre o mar. Avistam-se (cada vez menos) as baleias passar ao largo, no Inverno. Antigamente, as baleias eram capturadas e mortas numa “ballenera” aqui perto, em Quintay, hoje uma aldeia piscatória com as ruínas do edifício sangrento. Dizem que a cor que se vê no chão não é do ferro oxidado, mas sim sangue das baleias.
A noroeste, no mar, está o Arquipélago Juan Fernandez, ao qual pertencem as ilhas Alejandro Selkrik e Robinson Crusoe (a única habitada, com 700 pessoas). Em 1709, Selkrik, um náufrago trazido por uma tripulação de piratas, chegou a Valparaíso. Tinha sido abandonado nas ilhas 4 anos antes e inspirou Daniel Dofoe a escrever, 10 anos depois, “As aventuras de Robinson Crusoe”. Melville também ouviu, em 1800, relatos dos cachalotes brancos que navegavam a costa chilena. Deles nasceu “Moby Dick”. Soube estas histórias neste lugar de identidade marinha, no qual me fui enraizando, porque também me identifico com ele. (Se me re-identifico em identidades que não são a minha, se é que isso existe, provavelmente estou a usufruir da globalização…).
Por Sofia Valente
A Sofia é uma surfista do Porto que está na América do Sul a fazer um ano do curso de arquitectura e, claro está, a viajar e a surfar sempre que pode.

