Na rota do turismo

Desde que saí da Indonésia e deixei as pranchas num hotel em Bangkok que ando na rota do turismo.

É certo que, durante todo o percurso desde a Cidade do México, passei por vários lugares do chamado “turismo de massas” mas sempre encarei esses momentos como visitas de “picar o ponto”. Não que não as quisesse fazer mas, na realidade, nunca foram os pontos altos do meu roteiro de viagem pessoal.

Tulum ficava no caminho, em Tikal passava-se perto, o vulcão Arenal é imperdível (mesmo sendo um cromo repetido) e para ir a Atacama era só um pequeno desvio (12 horas de autocarro!). E assim por diante… juntando sempre “o útil ao agradável” e visitando marcos históricos e turísticos no caminho das praias e das ondas.

– Buenas olas hoy? – brincava comigo um local de San Pedro ao ver-me desembarcar do autocarro com duas pranchas ao ombro, numa cidade no meio do deserto e a 2.400 metros acima do nível do mar.

Esta sensação de estar só de passagem, a caminho de um destino menos convencional, dava-me alguma autonomia emocional para não embarcar em tudo o que me aparecia à frente (hotel booking, tours, happy-hours, massage, truc-truc, all you can eat… you name it!) na ânsia de aproveitar ao máximo a estadia. Era como se ali não tivesse qualquer obrigação de nadar naquela praia, de subir aquele monte, de fotografar aquela paisagem, nada! Na realidade, aqueles eram os meus pontos de descanso, os momentos para organizar fotos, actualizar o blog, escrever os postais e aproveitar um bocadinho de mais civilização. Se fosse a Roma e não visse o papa, não vinha daí grande mal. E, reconheço, fazia-me sentir um pouco à parte e diferente da maioria dos viajantes e turistas que ia encontrando.

Mas agora, quando me falha esse objectivo mais concreto e me vejo prisioneiro de agentes e operadores de turismo, começo a sentir o quão vazio e irritante pode ser viajar quando nos limitamos a seguir a corrente e os passos que outros desenharam para nós, como se fossemos cordeirinhos mansos em direcção ao matadouro.

No Vietnam e no Cambodja, não consigo fazer quase nada sem a ajuda de uma das centenas de agências de viagens que abundam em todos os locais de “passagem obrigatória”. Não encontro transporte público para subir o rio Mekong e tenho que ir numa viagem organizada (que até acabou por ser razoavelmente off-road); em Siem Reap, não alugam motas ou carros a estrangeiros, obrigando a visitar os templos de Angkor num tour ou de forma independente mas alugando um tuk-tuk com motorista/guia (alugar uma bicicleta e pedalar mais de 30 kms debaixo de um sol abrasador não me pareceu uma opção na altura); as empresas de autocarros não se vêem e é difícil conseguir que nos vendam um bilhete directamente, sem ser por intermédio de uma agência; há grandes esquemas montados de forma a fazer demorar as viagens até à exaustão para, finalmente, deixarem os passageiros mesmo à porta de uma guest-house onde os espera um sorriso e a promessa de um bom banho e uma cama confortável.

– Ouvi dizer que o caminho é perigoso porque se atravessa muitas aldeias para onde mandaram os antigos assassinos em massa – diz-me o Jean, um preocupado Suíço companheiro da viagem entre o Vietnam e o Cambodja.

Está a referir-se à estrada entre Siem Riep (Cambodja) e a fronteira com a Tailândia e às atrocidades cometidas pelo movimento Khmer Vermelho há mais de trinta anos, na altura ofuscadas pela cobertura mediática da campanha dos EUA na guerra do Vietnam.

Olho para ele com um ar paternalista.

– Mas achas que alguém te quer matar!? Coitados dos homens… só devem é querer viver na paz possível os anos que lhes restam. E se fosse assim tão perigosa não havia linhas de autocarros turísticos a fazer esse percurso.

Mais tarde, também ficará intrigado por eu e um Inglês, com quem dividi o quarto em Chau Doc, estarmos a tomar comprimidos contra a malária.

– Mas é assim tão perigoso? Nós trouxemos, mas só tomamos se ficarmos com febre.
– Boa! Eu também só ponho protector solar se apanhar um escaldão!

Desatámos todos a rir e acabámos a noite a beber umas cervejas e a contar histórias num bar com alto ambiente e boa música.

Consigo sair de Siem Riep de táxi partilhado até à fronteira, para tentar evitar os esquemas dos agentes de viagem, e daí apanhar um autocarro semi-público até Bangkok. Na verdade, nem percebi muito bem… só sei que paguei mais do dobro que os passageiros locais e tive que fazê-lo através do raio de um agente porque o condutor não me deixava entrar de outra forma!

Não me atrasei ao encontro combinado com a minha namorada em Singapura e, depois de dar um desfalque no orçamento (comprei um novo iPod para substituir o roubado na Costa Rica) e de uma voltinha pela Malásia (que recomendo sem reservas), regresso à Tailândia e ao expoente máximo do turismo: ilhas Phi Phi!

Cometo o erro de reservar um quarto através de uma agência de viagens, acreditando nos comentários de guias de viagens famosos. Azar! Não só fico sem o dinheiro do depósito como acabo por ter que me hospedar num hotel quatro vezes mais caro. Felizmente, é o único (excluindo os isolados resorts de luxo) onde é possível ter um momento de sossego para escrever aos meus leitores, longe das hordas de turistas que desembarcam no porto todos os dias, da música electrónica do bares de praia, do barulho das obras de reconstrução e do lixo que, dificilmente me convencerão do contrário, já não são restos nem efeito do tsunami. Este pedaço de ilha, mesmo depois da desgraça, está a rebentar pelas costuras e acaba por perder o seu encanto no meio da barafunda.

Ou então, sou só eu que já não estou habituado. Mas houvesse ali uma esquerda a quebrar perfeita na ponta do morro que a história já era outra. ;)

 

   
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