Mãe natureza

Todo o surfista é, como que por arrasto, um viajante. Mesmo os que, por todos os motivos e mais alguns, não podem viajar muito na vida real, acabam sempre a viajar nas fotos das revistas, nas manobras dos filmes, nas histórias dos amigos, etc.… tudo serve para a alimentar o nosso espírito na eterna busca da “onda perfeita”.

Viajar por caminhos já explorados é, na realidade, muito fácil. Mas, ainda assim, e apesar de muitos dos destinos de surf serem também destinos de turismo “normal”, com todas as estruturas e envolvente associadas, muitas vezes o surfista viajante encontra-se em caminhos solitários. Em situações, alturas ou locais em que, paralelamente à vida diária da população local, se transforma apenas num homem com uma única missão: “correr olas”.

Olho para o mar e não vejo ninguém. Ontem ao final da tarde, houve um local que entrou pelo meio destas pedras onde estou agora mas rapidamente lhe perdi o rasto no meio da corrente e da espuma. Não fez nenhuma onda; vi-o sair, minutos mais tarde, já bem longe, no outro extremo da praia.

– Foi por aqui que ele entrou, neste trilho pelo meio das rochas.
– Mmmm… mas eu não vou por aí. Por alguns metros, prefiro não arriscar. Vou entrar por aqui, nesta abertura.
– É isso, sem stress. Vamos nessa!

A conversa é apenas um monólogo na minha cabeça enquanto analiso a melhor forma de entrar na água ou, quem sabe, enquanto ganho tempo e coragem para me convencer a mim próprio de que sou capaz de fazer isto.

– Remo aqui juntinho às pedras e esta corrente deve ajudar a levar-me pelo canal.
– Isso. Não deve ser assim tão difícil. Entra-se por trás do pico.
– Pois… então porque é que o gajo de ontem só levou porrada sem fazer nenhuma?
– Não interessa, pelo menos tenta-se.
– E sem ver alguém a surfar nem sequer dá para perceber bem o tamanho…
– É para ir ou não?
– É, siga! Já estou farto de esperar que apareça alguém.

Vou remando devagar num canal de corrente, rumo ao desconhecido. A água está gelada. Á medida que me aproximo do outside, começo a ter mais medo de passar a zona de rebentação e não conseguir voltar do que de levar com algumas ondas em cima. É assustador ver as linhas a virem desde lá de fora, sem interrupção, e pensar que a única opção será apanhar uma onda, independentemente do verdadeiro tamanho que estiver… e, como reacção, deixo-me levar mais para o inside, mais em frente da zona de impacto. Agora percebo que, com estas condições, deve ser difícil entrar por trás do pico.

Tenho que passar algumas espumas por baixo que, surpreendentemente, faço sem grandes sobressaltos mas, entretanto, já passei a zona da primeira secção. A corrente não dá tréguas. Sento-me finalmente. Creio que estou mais ou menos no sítio onde quebra a segunda secção e a onda começa a ganhar a força de uma locomotiva. A água branca ao meu lado mostra que, pelo menos, ela aqui quebra. Começo a ver um set (grupo de ondas) a aproximar-se desde lá de fora.

– Foda-se! – o coração dispara. Hesito. A melhor opção é sempre remar para fora mas o susto às vezes congela-nos.

– Anda, rema! – de algum lado chega-me algum sangue-frio e discernimento.  Um “patinho” (quando se mergulha por baixo da onda) feito a medo é meio caminho andado para a prancha nos sair das mãos e ficarmos condenados a apanhar com o resto das ondas em cima.

Vejo o lip a começar a querer cair. “Rema, rema, rema. Vai dar, vai dar”. Fixo bem o pé na parte de trás da prancha e dou um bom coice para não ser arrastado para trás. Passo à justa. Debaixo de água, já sei que atrás vêm mais e que o único caminho é para a frente. Passo mais uma à justa e, nas seguintes, já estou livre de perigo.

Deixo passar o set, remo com força para dentro e apanho uma intermédia já completamente atrasado. Dropo no meio da espuma e resvalo por ali abaixo. Saio da água aliviado mas com um imperceptível sorriso na ponta dos lábios. Caminho, ao frio, cerca de 20 minutos até ao ponto de partida, sem ganhar os 2.000 Escudos do Monopólio, e avanço para o segundo round apenas para ser derrotado por KO.

Nos dias que se seguiram, a história nunca foi muito diferente. O mar não deu tréguas e não apareceu quase ninguém. Deixo a América do Sul com o orgulho ferido pelo mar frio e impiedoso de Pichilemu, martirizando-me por não ter conseguido fazer melhor, mas com a certeza de regressar. Não apenas para me vingar destas ondas mas também porque esta terra, ao contrário da aridez do Peru e do norte do Chile, me fez recordar Portugal. Pichilemu podia ser no Minho, com cavalos selvagens a pastar pelos campos verdes. Ou podia ser Espinho ou Aveiro, com os homens do mar a trabalhar ao frio e ao vento enquanto as suas mulheres rezam para que voltem vivos da faina. Podia ser Santa Cruz, Peniche ou Ericeira. E Punta de Lobos podia, facilmente, ser em Sagres.

Na verdade, Pichilemu podia ser “casa”.

 

 

 

   
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