Haciendo dedo

Seguimos em Atacama. Vemos Toconao, uma aldeia que corresponde à típica Plaza de Armas e quatro ruas em terra, onde a pequenina torre capela é uma dessas peças arquitectónicas pouco valorizada, que não é senão o testemunho de um conhecimento histórico pré-existente e alheio à civilização colonizadora (quase um testemunho de como se construiu, desde sempre, nesta região).

Mas o melhor desta estadia no deserto, do meu ponto de vista, veio revelar-se no fim, “a cereja no topo do bolo”. O tour completava-se com uma visita às Lagunas Altiplanicas e foi aqui que o cenário se revelou, para mim, mais deslumbrante. A percepção que se tem do azul destas lagoas naturais é alterada pelos fortes ventos deste planalto e pela luz solar irradiada pela neve das montanhas. O frio é de novo extremo: há neve, vegetação ocre e baixa, nem sinais de vida animal.

O tour inclui um almoço numa aldeia, que andávamos a pensar se seria com carne de llama, mas não, é uma “cazuela” típica: sopa chilena com carne e batatas, que aos poucos fui aprendendo a gostar. Acostumo-me ao “pan amasado” mas, sem dúvida, o que já conquistou o meu paladar foram as empanadas. Brinco com a ideia de montar um negócio de empanadas em Portugal, junto a uma praia. Qualquer surfista ia ter delírios com estas empanadas depois de surfar, a Rafaela está de acordo.

O dinheiro consome-se facilmente em San Pedro de Atacama e ambas já sentimos o aperto de economias. Está na hora de regressar, inverter marcha para sul, e deixar para trás as ideias de ir a Arica e a Iquique (onde queríamos surfar, ou pelo menos ver surfar), ao Parque Nacional Pan de Azucar… mas eu já estou quase há três semanas fora de casa e temos que salvar dinheiro para o transporte até Valparaíso (porque no norte do Chile é mais perigoso andar à boleia). Além do mais, ambas deveríamos voltar para as aulas.

Decidimos descer fazendo um desvio para ir Punta Choros, um pequeno pueblo de pescadores a norte da cidade de La Serena. Para chegar a este lugar não há camionetas, nem táxis. Não outra solução que não ir à boleia. Chegámos ao terminal de La Serena e, depois de algum desespero “haciendo dedo”, lá nos levou um camionista. Esta estrada que usávamos agora vai paralela á pan-americana, mas junto ao mar, e cruza uma zona de campos, que em Setembro, início da Primavera, ganha o nome de “deserto florido”.

Eu vinha com este lugar em mente, o meu amigo chileno também me havia falado dele, não me tinha era apercebido que ia justamente cruzar esse fenómeno do ano que é um deserto florescer, para chegar a Punta Choros. E cruzamo-lo sob a luz de fim da tarde: os campos cobrem-se de várias cores, onde noutras estações do ano se vê seco e castanho. Vamos bordeando o mar, vemos praias lá em baixo, várias “esquerdas” em “puntas”, sem ninguém a surfar… até que finalmente chegámos ao cruzamento com a pequena estrada de terra que nos levará a Punta Choros.

Pergunto no único café existente neste cruzamento se podemos acampar, porque está a ficar de noite. Está cheio de camionistas, não há lugar para mais ninguém, e saio, tentando não dar muito nas vistas. Cá fora, exponho a situação à Rafaela: estamos no caminho certo mas, se não passar ninguém na dita estrada, resta-nos acampar aqui no meio, longe do café, porque parece que é proibido camping por aqui. Passa um carro na estrada que queremos seguir, mas ainda estamos longe dela. O carro pára. Corremos como umas loucas com as mochilas, tenda, e a Rafaela com prancha de bodyboard. Eu deixo metade da carga pelo caminho para alcançar mais rápido o carro. Sim, podem levar-nos. “Tivemos sorte”, comento com a Rafaela que já vem a “cuspir os pulmões”. Subimos para a pickup (desta vez vamos mesmo dentro dela), o sol está-se a pôr, e restam-nos 12km numa estrada de terra para chegar ao mar. O céu está rosado.

O trajecto até ao pueblo de mar de Punta Choros vai descendo por um vale bastante fotogénico, verde, onde se vêem várias espécies de cactos, cavalos e llamas a pastar, burros nos prados, tudo isto numa enorme extensão em que não se avistam casas. Finalmente chegámos. Fizemos de novo uma viagem bastante grande, e à boleia, ainda que a Rafaela não o quisesse muito, eu insisti. Nestas viagens à boleia as perguntas que nos fazem repetem-se: de onde vimos, para onde vamos, como é o nosso país, que pensam os nossos pais, do que gostamos no Chile. Este casal conhece uma senhora que aluga cabanas em Punta Choros. Final feliz: chegamos já quase sem luz, rejeitamos a opção-tenda, e dormimos como uns anjos numa cabanita à qual ainda baixei o preço!

 

 

Por Sofia Valente
A Sofia é uma surfista do Porto que está na América do Sul a fazer um ano do curso de arquitectura e, claro está, a viajar e a surfar sempre que pode.

   
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