Kit de Viagem

Há mar e mar, há ir e voltar

PichilemuEsta viagem não tem princípio nem fim, será um ciclo. A mudança faz parte dela. Para chegar ao Chile houve uma cadeia de relações que a antecedeu – começou com no surf, no “namorar esquerdas” longas nas revistas; já na faculdade, vi no intercâmbio um meio para poder viajar, e trabalhei 4 anos para ter notas.

Para perceber como “fiz” o meu sonho no Chile e na América do Sul tenho que fazer um rewind a cada lugar, cara e conversa que percorri em 13 meses. Tudo isso me transformou. Lembro-me que, no início, os meus amigos chilenos me diziam que eu era saudosista e patriota. Agora não sei como se chama a sensação de querer viver num outro País, o Chile.

A viagem não foi só conhecer outros lugares, foi redescobrir-me neles e nas suas pessoas. Como andei sozinha, vi o que gosto mais e menos, andei mais ao meu ritmo e vontade, “ao sol ou à sombra”. Tornei-me mais tolerante à diferença e, a certa altura, estava “mestiçada” com ela – comia abacate com sal, o reggaeton do autocarro já não me incomodava, para a senhora da mercearia era mais uma vizinha. Rejeitava a rotina que tinha antes em Portugal, encontrei um sítio mais próximo do meu ideal de vida.

Nas vésperas de regressar, faltava-me coragem para me despedir de amigos. E tinha que despedir-me do lugar que me deu alegrias incomparáveis – Pichilemu – mesmo estando mar grande demais para mim. O meu amigo e surfista local, Yeye não estava lá. Como muitos chilenos, foi trabalhar para a Nova Zelândia e daí partiu para a Indonésia. Não cheguei a despedir-me dele.

Combinei com um outro amigo, o Manolo, surfarmos uns dias na sua cidade e depois irmos a Pichilemu. Ele vive na cidade de Algarrobo, a sul de Valparaíso. Surfámos várias ondas que eu não conhecia, com fundos de pedra. O Manolo ganha a vida a limpar uma das dez maiores piscinas do mundo e a fazer manutenção dos iates na marina. O resto do tempo, surfa.

Finalmente o mar desceu – era o dia D para apanharmos Punta de Lobos “surfável”. Acordámos às 4 da manhã e partimos para Pichilemu, com a expectativa de apanhar um dia no meio da “marejada” que tinha entrado. Punta de Lobos é fotogénica. De longe, são linhas umas atrás das outras, no melhor ângulo. Ao chegar à baía, as ondas já são maiores e, como se vêem de cima, lá dentro serão maiores. Enfim, análise após análise resignei-me: não tinha surf para aquele tamanho e corrente.

Pichilemu tem outras ondas, e uma delas é tão ou mais comprida que Punta de Lobos. Nessa manhã apanhámos ondas com cerca de 500m, estávamos 4 na água. Umas focas, pelicanos e um nevoeiro intenso. Quando saí, doíam-me as pernas e tinha os dedos brancos. De tarde, a ondulação diminuiu e entrámos em Punta de Lobos. Estavam ondas de 2m, as maiores com 2,5m, e um “tubo” pelo meio. Apesar do medo, apanhei das maiores e melhores ondas que já surfei – rápidas e muito compridas. O Manolo filmou-me no fim. Esta sessão foi um presente que alguém me deu, foi uma bênção memorável.

Ao voltarmos de Pichilemu, o sol estava a pôr-se no mar, batia de frente na cordilheira que, lá longe, era como uma muralha de tons vermelhos. Esta estrada costeira é muito bonita, atravessa os cultivos de palta chilena (abacate). Estava tão contente e emocionada com o surf… e comentava com o Manolo como tinha sido o meu destino: no último dia, no dia em que vinha despedir-me da minha onda predilecta, ela dá-me uma das melhores sessões. E agora que tinha de partir. “Será mais um sinal de que esta não foi a tua despedida?”. No dia seguinte entrou tempestade.

Despedi-me dos amigos antes de ir para Santiago. Mas estive a ponto de não voar do Chile para Portugal. Os cartões de crédito não funcionaram ao pagar o excesso de carga que tinha: a prancha e 30 kg a mais. Não me separava da prancha por nada. A 10 minutos do voo, estava no check-in, com as malas, só com a minha cabeça para me “safar”. Á quinta tentativa consegui levantar o dinheiro suficiente para a prancha. Entrei a correr e a chorar no avião, com 30 kg na bagagem de mão. Em Santiago ficou uma mala (não paga).

Já em Madrid, a prancha demorou uma hora a aparecer. Fiz uma reclamação de cortesia na Ibéria (para me enviarem a mala que tinha ficado) e, depois de 13 meses, abracei o meu pai. Actualmente, ninguém quer uma mala sem dono num aeroporto e ela acabou por chegar ao Porto 2 dias depois, sem ser necessário pagar um cêntimo dos 300 euros iniciais. Os meus cartões de crédito funcionavam bem. Alguma força maior me prende ao Chile.

O que escrevo em seguida é posterior ao terramoto de Fevereiro 2010.

O epicentro foi muito próximo da praia de Curañipe, onde passámos o 18 de Setembro, dia das Fiestas Pátrias (a maior festa do Chile), a ver um campeonato de surf. As ondas, das melhores e mais secretas do Chile, fazem do lugar um paraíso perdido. Foi devastado pelo terramoto. A devastação nas praias afectadas é indescritível. A casa do Yeye, em Punta de Lobos, como muitas em Pichilemu, desapareceu, mas ele salvou-se.

Diz-se que o chileno dá o melhor de si antes das eleições e depois dos terramotos. As duas coisas praticamente coincidiram. O que senti nos chilenos, quando me receberam na sua casa, com comida, ajuda e conselhos, quando me levaram a sítios únicos, volta a surpreender-me. Bens materiais vêm e vão, mas os valores como a hospitalidade e o humanismo estão intrínsecos nos chilenos, e são uma lição para outras nações. Essa é a maior bagagem que trouxe. Essa condição humana é uma das razões que me faz querer voltar. No meio da mudança é o que permanece.

Deixo um obrigado especial à Rafaela, Tomás, Lorena, Maurício y sus hijos, Ale, Barbara, Nico, Yeye e Manolo. No Brasil, ao Lucas e sua família. Aos amigos que não estão aqui, mas que navegam comigo. À minha família, em especial ao meu pai. Sem eles, esta viagem não teria sido como foi.

 

 

Por Sofia Valente
A Sofia é uma surfista do Porto que está na América do Sul a fazer um ano do curso de arquitectura e, claro está, a viajar e a surfar sempre que pode.

 
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