Filho adoptivo

Regresso à costa na zona de Taranaki, berço por excelência da comunidade Maori, a tribo polinésia que está nas raízes da Nova Zelândia, trazendo já na bagagem muitas aventuras em terra, incluindo o Tongariro Crossing, uma caminhada de 8 horas através do Parque Natural onde foram filmadas muitas cenas do filme “O Senhor dos Anéis”.

Alojo-me do Sunflower Backpackers, em New Plymouth, e começo a explorar as redondezas. Apesar da pacatez, é uma cidade com alguma dimensão, com trabalho e com todas as estruturas a que estamos habituados. E, muito importante, além de ter algumas boas praias mesmo à porta, é também uma excelente base para surfar todo o redondo de Taranaki. Parece-me um bom sítio para viver.

Decido procurar uma massagem para tentar disfarçar a dor no ombro e encontro, no meio de ruas muito pouco turísticas, um espaço de medicina tradicional Maori. Infelizmente, não consigo fazer a massagem porque é fim-de-semana mas fico um bom bocado à conversa com a Mahinekura, uma mulher com a idade da minha mãe que se apresenta com uma simpatia genuína e uma figura impressionante, de lábios e queixo tatuados, penas brancas no cabelo e uma saia comprida colorida.

– Deixe os sapatos lá fora, por favor. Nós andamos sempre descalços dentro de casa.

Conversa puxa conversa, saio de lá com o número de telefone, morada e um convite para passar uns dias em família numa autêntica aldeia Maori. “Pungarehu, Surf Highway 45. Virar à esquerda a seguir à placa e subir o caminho de terra até ao fim” – lia-se no papelinho.

oakura nova zelandia
Oakura, uma das magníficas praias na zona de Taranaki.

 

No dia seguinte, ligo um pouco mais tarde do que a hora combinada. Atende-me um homem.

– Olá, sou o André. Sou de Portugal, estou por aqui em viagem e conheci ontem a Mahinekura no Centro de Medicina. Ela convidou-me para passar uns dias.

– Ah ok. Daqui fala o Rein, sou o marido da Mahinekura. Ela não me disse nada, deve-se ter esquecido… mas tudo bem, excelente! Tens a morada? Aparece a partir das 18:00. Até logo!

A Surf Highway 45 é uma estrada que circunda o Mount Egmont junto à costa. Devido à sua forma esférica, estes 105 km têm um ângulo de abertura de 180 graus para receber todas as ondulações e ventos favoráveis possíveis, fazendo desta área a zona de surf mais consistente da Nova Zelândia. Pungarehu fica mesmo a meio do meio círculo.

A casa dos Reinfelds é de madeira, como a grande maioria, e está localizada a meio da encosta entre o mar e o monte sagrado. Na parte da frente, há um relvado rodeado de arbustos altos mas a casa está situada num plano mais elevado, pelo que se pode, à tardinha, ficar a ver o sol cair no Mar da Tasmânia. Na parte de trás, além da garagem e de um anexo com dois quartos onde costumam receber estudantes estrangeiros, têm um terreno grande com dois cavalos e meia dúzia de porcos Kuni Kuni.

O Rein, caucasiano, algo céptico sobre alguns assuntos da tradição Maori,  trabalha numa empresa que o obriga a deslocações frequentes à capital Wellington, no sul da ilha, onde têm também um pequeno apartamento. A Mahinekura, Maori, totalmente absorvida pela história do seu povo, trabalha como voluntária no Centro de Medicina Tradicional e colabora com uma série de organizações e pessoas locais para manter viva a história e a forma de vida transmitida pelos seus antepassados. Têm dois filhos mais ou menos da minha idade, uma rapariga que está fora a estudar e um rapaz que, neste momento, está a viajar na Europa.

– Ficas no quarto dele. Ele não se importa, até faria gosto… ele também faz surf e snowboard como tu.

Na primeira noite sinto alguma estranheza por estar em casa de pessoas desconhecidas, mas rapidamente habituo-me à situação e acabo por ficar alguns dias a apanhar boas ondas, mais urbanas e com mais crowd como Fitzroy, Back Beach e Oakura ou mais selvagens e sem crowd, como Stent Road, Graveyards e Waitara Rivermouth, uma direita que me lembra os melhores dias do cabedelo do Douro.

Tenho chave de casa, entro a saio quando quero… até porque os meus anfitriões estão fora o dia todo a trabalhar. Encontramo-nos ao final do dia, para uma refeição caseira de que já sentia falta e para conversar sobre os assuntos mais variados. A Mahinekura tem uma abertura de espírito fantástica para uma pessoa da idade e das raízes dela.

Waitara Rivermouth
As ondas que apanhei, sozinho, em Waitara Rivermouth.

 

– Quando me convidaste, pensei que ia encontrar uma aldeia de cabanas de palha, com as mulheres a cozinhar no fogo e raparigas de tanga a correr de um lado para o outro – provoco.

– Ah não, gosto muito do meu micro-ondas! Mas quanto às raparigas, não te preocupes. Se quiseres, no sábado levo-te a uma reunião e quem sabe arranjas lá casamento.

Na televisão, passam as notícias do atentado na estação de Atocha, em Espanha e, pela primeira vez, tomo consciência do quão longe estou de casa.

No meu último dia em Taranaki a Mahinekura leva-me a visitar o Parihaka Pa, a aldeia original onde hoje já vive pouca gente mas que continua a ser um importantíssimo centro cultural, histórico e político. É ainda aqui que os núcleos e líderes Maori se reúnem para discutir e tomar decisões na sua luta constante contra o poder político instalado que, ao contrário da vizinha Austrália, ainda valoriza e respeita os valores do seu povo nativo. É também aqui que se reúnem para festejar e, apesar de não haver raparigas de tanga a correr, sente-se uma enorme carga emocional no lugar.

– Aqui não entram turistas nem visitantes, por isso faz como se estivesses em tua casa. As pessoas que te virem comigo vão considerar que fazes parte da whakapapa, a grande família Maori.

A Mahinekura gostava que eu ficasse mais tempo. “O tempo que quiseres” – disse-me. E, antes de partir, entrega-me uma bolsa e uma pequena mochila de palha, feitas por um artesão local.

– A bolsa é para ofereceres à tua mãe. A mochila é para ti, porque é boa para trazeres o fato de surf molhado quando voltas da praia.

Ambas têm dentro uma pena branca de um pássaro sagrado. Não as devo tirar pois, supostamente, irão trazer-nos paz e tranquilidade para o resto da vida.

– E não te esqueças de me enviar uma fotografia do teu sobrinho que vai nascer. Tenho que pedir paz e saúde, ele agora também é nosso neto!

O mais extraordinário é que ela não dizia isto da boca para fora.

 

A Mahinekura faleceu em Dezembro de 2007, vítima de cancro. Recebi a notícia na África do Sul, a última etapa da minha viagem de volta ao mundo, através de um email que a família dela enviou para a sua lista de contactos. Nos destinatários, além de “André-Portugal” estava uma lista considerável de “nomes-países”. Viajantes que, como eu, terão tido a sorte e o prazer de conhecer esta mulher.

Haere ra Mahinekura.

   
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