Chegar a bom porto

Não é aconselhável chegar de noite sem lugar para ficar marcado. Cheguei assim a Montevideo, mas correu tudo bem. Fiquei num hostal barato, bonito e bom, era uma casa antiga, como muitas na cidade, e alguém tocava piano quando entrei. Usei o Espanhol mas a recepcionista era brasileira. Falei em Português, e saíram-me alguns erros, desabituei-me da língua. Percebo bem o que acontece aos imigrantes. Há muito tempo que não falava Português (só pelo telefone) e não escapei ao “portuñol”.

Cada vez gosto mais de cidades portuárias, aliás dos portos. Aquilo que, geralmente, se diz ser feio, aquilo que a Arquitectura Moderna quis ter na periferia. Os “containers” coloridos, as gruas, os molhes, as obras de engenharia naval, os estaleiros, os diques, as alfândegas e, por fim, os barcos. Muitas das principais cidades do mundo partiram geralmente dos seus pequenos portos, funcionando como bases logísticas do comércio marítimo, como o Porto, Lisboa, Buenos Aires, Nova Iorque, Tóquio, Roterdão, Londres, Barcelona, Génova, Nova Iorque, Lima, Valparaíso e Montevideo.

Hoje sabe-se que as mega-estruturas portuárias, mesmo quando segregadas aparte em cidades-satélite, precisam de estar próximas das cidades-mãe, porque dispõem das auto-estradas, serviços, e atraem mão-de-obra das mesmas. Assim como a cidade-mãe precisa de produtos. É graças a isto que em Portugal se pode consumir “mate” argentino, maças chilenas ou que a “polenta” italiana é prato conhecido aqui, ou que os chineses podem ter negócios em Portugal.

Sabe-se também que o preço dos produtos e serviços nas diferentes partes do mundo é relativamente o mesmo, o que faz encarecer ou embaratecer o seu custo final é a proximidade (ou não) a essas “redes de oportunidades”, de distribuição e comunicação, enfim, a facilidade de acesso dos seres humanos aos bens. O chamado “primeiro mundo” prima por isso, China, Japão, Coreia, têm mega-aeroportos, portos, e estradas, e as maiores concentrações populacionais. Os portos, por muito feios e desagradáveis que sejam, nunca deixarão de existir, são vitais às urbes contemporâneas.

Voltando a Montevideo, o porto não foge a alguns sintomas das cidades portuárias. Tem edifícios da época colonial, tem ex-indústrias e estações de caminhos-de-ferro abandonadas. O porto impede o acesso ao mar e, numa parte, vira costas à cidade. É raro, aqui como em qualquer porto do mundo, deixarem entrar o cidadão comum para ver as enormes áreas, como se trabalha lá dentro, a dimensão dos navios. Só se for turista de cruzeiro. Usei a estratégia do “os meus pais estão lá em cima a almoçar” para ver o porto de cima, já que não o posso ver por dentro.

A conflituosa relação cidade inicial/porto/mar foi, e é, também oportunidade única para reconverter e requalificar grandes áreas de cidades degradadas. Roterdão, Barcelona (Expo92), Marselha, Génova, Lisboa (Expo98), exemplificam-no. A marginal costeira de Montevideo é isso mesmo, “marginal”. Como se poderia intervir aqui sem repetir os erros cometidos noutros lugares? Barcelona remodelou-se, foi eleita a cidade europeia com “melhor qualidade de vida” à custa disso e atraiu um turismo desenfreado, que é agora a principal causa da falta de “qualidade” na vida dos habitantes. Além disso, as novas frentes marítimas, apesar de terem passeios públicos, espaços urbanos equitativos, onde o ócio e desporto são recuperados, são acusadas de serem excessivamente artificiais, pouco humanas e todas idênticas. Conheci a Rocio, ela é espanhola, de “intercâmbio” em Santiago do Chile. Foi com ela que conversei estes temas pela cidade.
 
Perguntam-me frequentemente se sou chilena, sentem-no no sotaque. Quando há curiosidade, ou coincidência de gostos, a amizade viabiliza-se. Mas é estranho, as afinidades surgem como entre amigos de velha data, mas as amizades são curtas, porque que cada um segue a sua estrada. O lugar, a música, o cheiro, o tempo que fazia nesse dia ficam guardados com amigos assim. Conhecia a Rocio há meia dúzia de horas, demos um mergulho na água quente do mar, passeámos e conversámos.

Montevideo passou despercebida ao turismo maciço. É velha, abandonada, e agradável para quem souber apreciar aqui a “qualidade” da vida.

 

 

Por Sofia Valente
A Sofia é uma surfista do Porto que está na América do Sul a fazer um ano do curso de arquitectura e, claro está, a viajar e a surfar sempre que pode.

   
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