Chegada a Bangkok, Tailândia

Aos 17 anos fui estudar para Lisboa. Já tinha visitado a cidade várias vezes contudo nunca tinha andado verdadeiramente sozinha e à solta. Era carne fresca na cidade e era tímida, muito tímida. Estava com a minha melhor amiga, outra ingénua tímida acabadinha de chegar da ilha e tiramos à sorte para ver quem iria perguntar ao senhor polícia onde ficava a Rua do Ouro. Sinceramente não me lembro quem perdeu só sei que acabamos por decidir ir perguntar ao mesmo tempo. A união faz a força e tal. Para nossa surpresa a Rua do Ouro ficava a meio metro. São momentos como esse que me fazem apreciar ainda mais a minha chegada à Tailândia sozinha e após mais de vinte e quatro horas de viagem.

Parti de Bruxelas às dez da manhã, voei durante sete horas até Abu Dhabi e fui informada do atraso do meu vôo para Bangkok. O aeroporto de Abu Dhabi é um pouco estranho. Além de lojas super caras (um pacote de dez mini-twix custa 9.82$), de internet gratuita (excelente sugestão para outros aeroportos), há cerca de 120 homens a morrer de tédio. Acabei por meter conversa com dois ingleses de Manchester e lá consegui enganar o tempo do atraso do vôo. As sete horas seguintes até foram giras, como sempre não consegui dormir no avião e acabei por me perder na lista de filmes, séries, cds e jogos disponivéis.

Aterrei às 7h20 e fui com os ingleses para a fila da alfândega. Apesar da conversa estar animada apercebemo-nos que a fila não estava a avançar muito. Após 1h40m chegou finalmente a minha vez. Só consegui pensar na minha mala, se ainda lá estava, se as rodas ainda funcionavam – quando cheguei a Riga já  não tinha rodas na minha outra mala – e eis que a senhora me pede para ficar quieta porque está a tentar tirar-me uma fotografia. A mala já não estava no tapete mas lá estava toda inteirinha e fofinha. Fui trocar dinheiro, só tinha dólars e euros. Ainda no aeroporto fui à procura do posto de informação, não tinha reservado hotel e ainda não tinha a certeza da zona onde queria ficar. Ou ficava no centro, onde há mais coisas para ver e fazer mas também há muito mais gente ou ficava na zona do centro comercial exactamente entre o centro e o autocarro que eu precisava. Após três segundos apercebi-me que a senhora do posto de informação não estava habituada a turistas sem reserva, sem planos e com perguntas. Comprei o bilhete para a zona do centro comercial após ler no meu guia que havia uma rua sossegada.

Cerca de 30m depois do previsto o autocarro chegou. Estava cheia de fome. Dei por mim a pensar no bife da Portugália, frango assado, carne de porco à alentejana e milho frito durante todo o percurso. O trânsito em Bangkok é realmente gigantesco, é como se fosse hora de ponta o tempo todo. Ao menos há uma certa ordem e não apitam como na Índia. Demorarmos quase 3h até chegarmos à minha zona, isto para um percurso de cerca de 50 minutos. Já não tinha forças para pensar em comida. Comi todos os biscoitos que tinha na mochila e voltei a perguntar ao motorista onde ficava a minha rua. Eis que descubro que na Tailândia há duas, três ruas com o mesmo nome. Por exemplo, há a soi kasemsan 1, soi kasemsan 2…Andei um bocado às voltas até encontrar uma senhora que sem uma palavra de inglês me explicou onde ficava a rua. Ficava do outro lado da rua mais movimentada da minha vida. Felizmente Bangkok é perita em pontes para peões, o senão é que a minha mala pesava 20kg e a mochila 7kg. Ao empurrar a mala por aqueles degraus acima insultei cada item que trouxe, a começar pelo computador.

Após entrar num centro comercial pela porta errada, aqui levam muito a sério a questão de uma porta de entrada e outra para a saída, e voltar a sair pela porta errada, desta vez com um olhar desaprovador do segurança, e correr por uma rua fora com a mala atrás (afinal não estou em tão má forma) cheguei ao hotel às duas da tarde. O único quarto livre fica no quarto andar, não há elevador, dizem-me. Claro, respondi. Quando finalmente consegui chegar até à porta do quarto estava exausta, ria por tudo e por nada e estava muito orgulhosa dos meus feitos. Contudo o rapaz da porta ao lado afastou-se de mansinho. Enfim, não se pode ganhar todas as batalhas.

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