Argentina imprevista

A partida para esta viagem foi atribulada. Nos últimos tempos sentiram-se sismos em Valparaíso, e houve um que me fez duvidar das velhas e confiáveis estruturas de madeira e ladrilhos de adobe (terra e palha) com que foram erguidas a maioria das casas desta cidade (a minha também). O Chile é um dos países do mundo com maior nível de sismicidade e em 1906 houve o último terramoto que destruiu parte de Valparaíso.

Decidi que ia viajar para o Peru e optei pelo sul, pela zona de Cusco, deixando para outra altura a viagem para surfar (é arriscado viajar sozinha com a prancha e para chegar até ao norte levaria vários dias e transbordos). Mas, surgiu mais um imprevisto de última hora. Nesta altura do ano chove muito em Machu Pichu e, por vezes, fecham mesmo o acesso às ruínas. Inversão de planos: troquei os tickects de bus para outra direcção na véspera da viagem, o novo destino é Buenos Aires. Para o resto do percurso, tenho vários pontos onde queria passar, além disso já levava prancha, e uma margem de improviso maior, as oportunidades imprevistas iam ser guias do meu tempo.

A chegada a Buenos Aires foi engraçada, fui afortunada: a senhora que trabalha no posto de turismo do terminal é porteña (habitante de Buenos Aires), conhece muito bem o Chiado em Lisboa e, além disso, guarda-me a prancha para eu poder ir ao ansiado quarto de banho, sem ter que pagar custódia. Diz ela que o filho também é surfista em Mar del Plata. Não era para esses lados que eu ia, mas acabou por me dar informações valiosas, além da empatia logo criada. Ofereceu-se para ser minha guia na cidade, além do convite para ir ver tango nesse dia.

Buenos Aires ferve no Verão. A cidade, que está entre as dez maiores cidades do mundo, tem níveis de humidade extremos nesta altura, o calor é insuportável. Desloco-me na complexa rede do metro, e a pé, restrinjo-me a alguns sectores da cidade, é-me impossível vê-la toda, é grande, monumental, imponente. San Telmo, um dos bairros da cidade, está repleto de arquitectura colonial, e interesses que deleitam os turistas europeus. Há mercados antigos (recordam-me o Bolhão), feiras de antiguidades, lojas com objectos e roupa de design contemporâneo, cafés antigos, y clubs tangueros. Apesar do turismo endinheirado, vêem-se alguns pobres e sem abrigo (parecem-me mais misturados na urbe, que noutras cidades onde eles se concentram aparte, como que segregados em certas zonas).

Ouve-se sempre um tango de fundo, Carlos Gardel, Piazzola, ou remisturas deles. Há também um imaginário gráfico e literário que faz parte da cidade: Evita Péron, Che Guevara, Jorge Luís Borges, Júlio Cortazar. As feiras de livros usados converteram-se numa tentação para mim e tento controlar os meus orçamentos. Os porteños foram-se revelando como pessoas muito extrovertidas, cultas, bem-humoradas, e contribuindo para uma ideia generalizada que se tem deles: são pessoas que sabem gozar a vida, o que ela tem de bom e mau, são bons conversadores e apreciadores desses tempos de lazer e ócio em que se discorre sobre o tempo, a arte, a cultura, a literatura, a beleza. São por índole própria, porque as ocasiões o permitem, bons para as piadas e piropos.

As classes média e alta são cultas. A cidade também dá sinais de algum “europeísmo”, a nível social, arquitectónico e urbano. Parece-me que, de forma generalizada, o conhecimento manifesto que têm da Europa é superior ao que a Europa tem da Argentina e da América Latina, suas história, política, etc. No bairro de Monserrat, o núcleo inicial da cidade, o protagonismo do traçado urbano impõe-se: na Plaza Mayo convergem os eixos diagonais, os eixos da malha reticulada (a cidade é feita de quarteirões, em ruas paralelas e perpendiculares), e desemboca aqui a Avenida axial homónima. Este tipo de desenho é referido pelos urbanistas como “pata de ganso”, graças ao esquema (em planta) que se reproduz no espaço físico da cidade plana. A escala do lugar, já não sob uma “vista de pássaro”, e sim com os pés assentes no chão, é estonteante, a arquitectura contribui para isso. Há muitos arranha-ceús. Aqui aconteceram muitas manifestações políticas, junto à Casa Rosada, sede do Governo Nacional, ao Cabildo (sede do governo colonial), e à Catedral Metropolitana.

Na Avenida 9 de Julio, um grande eixo norte-sul que corta a cidade. Foi complicado atravessar a rua. É avenida mais larga do mundo, tem 8 faixas em cada sentido, mais os passeios largos e com árvores. Tem um jardim central, no qual se encontra o famoso obelisco branco. O trânsito é veloz e não perdoa, atravessar rápido. Percorri ainda o bairro do Retiro, a pé, que me recorda as “baixas” comerciais das cidades europeias (ou das cidades globalizadas), há pessoas “formigas” a comprar, tocadores de instrumentos, danças de tango, gente a ver. Sempre muitos turistas.

 

 

Por Sofia Valente
A Sofia é uma surfista do Porto que está na América do Sul a fazer um ano do curso de arquitectura e, claro está, a viajar e a surfar sempre que pode.

   
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