A vida selvagem em directo

Na Tailândia sou três vezes uma minoria: sou branca, não falo tailandês e não pertenço à família dos répteis. É uma combinação interessante. Confesso que nunca me tinha ocorrido ser uma minoria simplesmente por ser mamífera. Nada como viver noutro país para nos colocarmos em perspectiva.

Sabia perfeitamente que estava a mudar-me para um país tropical e vi documentários suficientes para me considerar informada. No entanto… sou uma enorme maricas, essa é que é essa.

Estou cá agora há um mês e achava que estava melhor. Andava pela rua à noite com oito, nove, dez cães a seguirem-me e corria tudo bem. Após algumas fugas ridículas já conseguia ir à casa de banho com um sapo enorme a olhar para mim. Habituei-me a ver geckos bebés (lagartos enormes que têm um som gutural “geckoooooo” – faz lembrar o som que as minhas Nenucos faziam só que elas eram bem mais bonitas – e que supostamente comem mosquitos) por todas as paredes, aranhas, aranhiços e claro, milhões de mosquitos. Estava a começar a ficar orgulhosa de mim e tudo. Mas tudo mudou há dias quando ao ir buscar roupa interior dois geckos saltaram da parede na minha direcção. Testei os pulmões com um grito enorme e toda a gente achou muito divertido. Todavia reparei que apesar do riso ninguém se atrevia a entrar no quarto depois de os ver.

Desde o incidente com os geckos que a minha confiança foi abalada. Pareço ter tanta coragem e à vontade como quando era criança, excepto que agora já não grito tanto. Uma questão de orgulho e noção do ridículo, acho eu. Agora sou uma enorme maricas outra vez: Atravesso a rua quando vejo um sapo. Ou até – aconteceu ainda ontem – quando oiço um sapo. Fui a única que não se levantou para ir ver a cobra do nosso quintal de mais perto, por mais bonita que fosse fiquei no meu cantinho. Ao entrar no meu quarto olho em volta à procura de visitas indesejadas. Quase que cheguei a ir dormir noutra casa só por não querer partilhar o quarto com os lagartos. Colo-me a quem quer que seja que esteja na rua para não ter de enfrentar os galos sozinha, se não houver ninguém na rua tento manter a distância e ando mais depressa sem tirar os olhos do bico… Se vou à cozinha à noite sobressalto-me com qualquer sombra, qualquer som fora do comum. Tenho a certeza que acabarei por escrever um filme de terror inspirado por estes medos todos.

O meu quarto apesar do agora novo inquilino gecko – Frederico –  continua cheio de mosquitos, pulgas e sei lá mais o quê. Tenho o quarto tão cheio de Dum-Dum e Raid que começo a tossir mal entro e no entanto, continuo a ser mordida. Mesmo com a rede, mesmo com o Dum-Dum, mesmo com o repelente. Devo ser deliciosa para toda esta insistência e popularidade.

Esta semana os alunos andam a fazer testes e a brincar. Corrijo os testes na sala porque há demasiada actividade no meu quarto. Oiço música no quintal porque o Frederico decidiu chamar a fêmea comigo lá dentro… Acho que vou precisar das férias que se aproximam. Contudo, preocupa-me pensar no estado do meu quarto quando voltar um mês depois. Será que vou encontrar toda uma família de geckos? Não sei se mencionei que era uma enorme maricas?

 
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