Quando ainda vivia no continente europeu ouvia muito falar sobre a calma e a paciência asiática e africana. Durante alguns anos pensei tratar-se de tolerância ao stress que o mundo ocidental parece acumular. Após quase um mês na Tailândia rural, no meio de nenhures, começo a ver as coisas de outra perspectiva. Não adianta mesmo ser impaciente neste continente. Se ando um km e meio para chegar ao cyber-café e ao chegar sou informada que a internet não funciona, não tenho outra alternativa que voltar no dia seguinte. Claro que ultimamente a internet tem estado em baixo durante dois, três dias seguidos.
Uma das coisas mais importantes para um tailandês, ou se quiserem, um dos pontos essenciais da cultura tailandesa é não perder a cabeça, não se chatear. Na verdade um tailandês zangar-se, levantar a voz, irritar-se etc é o equivalente a perder toda a razão, a discussão e basicamente manchar a honra para todo o sempre. Quando ouvi esta explicação pensei logo nos portugueses, espanhóis e italianos e no seu sangue quente. Ainda estou para explicar essa característica aos tailandeses, talvez mais para a frente.
Por acaso conheci quatro italianos que trabalham no orfanato, é raro os voluntários da escola conhecerem todos os do orfanato devido aos horários díspares. Pareceram-me simpáticos e partilhamos um humor que não resulta com os tailandeses ou birmaneses. Dois deles estão a construir uma vedação para impedir o acesso ao orfanato sem passar pela entrada principal. Ao que parece já aconteceu chegarem homens armados dispostos a matar uma das mães residentes. Quem não conhece o espaço não consegue imaginar o trabalho. Há mais de vinte dias que estão a limpar pasto, separar o lixo, carregar madeira e bambo…Isto debaixo do sol abrasador da Tailândia. Ofereci-me para ajudar e mesmo com um par de mãos extra ainda há muito para fazer. Há uma montanha de entulho, mato e bambo e há que separar em pilhas diferentes. Conseguem imaginar o que é fazer isto entre a uma e as quatro da tarde, com quarenta graus? Fui bebendo muita água e molhando a cabeça mas continuei a sofrer com o calor. Apesar desse “pormenor” gostei da experiência, gosto de ver frutos do trabalho e a montanha de mato que vai diminuindo é uma boa forma de seguir a evolução, gostei igualmente de poder ter uma competição de lixo com o italiano, o jogo é simples: quem encontrar o item mais nojento ou mais estranho ganha. No meu primeiro dia descobri cinco fraldas, uma em estado muito avançado de decomposição, dois chinelos de tamanhos diferentes, uma t-shirt, umas cuecas e um ninho de formigas vermelhas, exacto, as tais que são venenosas (a italiana foi mordida há dias e continua com a mão inchada), logo fui a vencedora indiscutível. Contudo no dia seguinte ele encontrou um colar, uma pulseira, três fraldas e eu apenas sacos de plástico.
Os três tailandeses que são pagos para nos ajudarem vão desaparecendo aos poucos, um disse que estava muito calor e só voltou uma hora depois – quis perguntar-lhe se achava que estava fresco para os brancos que separavam o lixo mas portei-me bem – outro sentou-se na sombra e assobiou enquanto eu e o Philippo dizíamos mal da música tailandesa. Uma das consequências da calma tailandesa, do não quererem chatices ou uma mancha na honra é que não sabem dizer não. Se pedirmos a um tailandês para fazer algo que não quer ele ou ela dirá que sim, o que não quer dizer que o faça. Só isso explica os trabalhadores dizerem que sim e depois desaparecerem…Só isso explica as lojas onde compramos o material dizerem que sim que têm o material mas que temos de voltar amanhã. Isto durante duas semanas seguidas. Viver na Tailândia vai tornar-me numa pessoa muito paciente.