Kit de Viagem

Uma urbe que não pára

Há qualquer coisa que torna esta cidade especial, diferente das outras, heterogénea e homogénea ao mesmo tempo. Quando cheguei e comecei a caminhar por ela, a percorrer as infinitas escadas que tornam o dia mais temperado quando está frio, as subidas, as ruas com 1,5m de largura, e cérceas de 3 ou 4 pisos… algo havia do meu Porto. Recordei-me das imagens que armazenei dessas “Cidades Invisíveis” do Ítalo Calvino, elas aqui tomaram alguma forma. Cidades-escadaria estreitas, sinuosas, cidades feitas de fios de electricidade flutuando no ar, cidades feitas de pontes-pasarelas que sobrevoam o espaço, cidades em que se anda na vertical.

Além da adaptação a uma cidade, tenho ainda toda a introdução a um País e ao seu quotidiano. Aos “colectivos” e ao seu sistema de pegar e deixar o passageiro onde quiser dentro de uma determinada zona para onde também vão os outros passageiros; às micros (os autocarros podres que vêm do Brasil, apesar da aventura de condução ser puramente portenha!); ao sistema de pagar num guiché à parte em todos os negócios, mercearias e comércio local; às bebidas, a começar com o pisco e a terminar no vinho; às empanadas, à pescada, ao marisco, às sopas de marisco, à comida tradicional… ainda assim acho que se comem muitos fritos e se bebem muitas bebidas com gás (tenho saudades da Compal!). Maionese, sal e açúcar em tudo; e ao abacate na refeição chamada “once”, que no caso de alguns substitui o jantar… almoça-se apenas.

Almoço frequentemente na parte de cima dos dois mercados de fruta, verduras e pescado. São edifícios antigos, em decadência, antes que alguém se lembre de lhes fazer uma remodelação. Oxalá não tenham o mesmo destino que o nosso querido Bolhão. A fruta, os legumes, o cheiro a peixe, o marisco meio vivo, as flores na portas dos mercados… são algo diário, que compõe um cenário cheio de cores e cheiros misturados que vale a pena parar para observar, como que fazer um desses filmes que se deixa uma câmara no mesmo lugar durante o ciclo do dia.

Outras das realidades que faz parte do quadro que se pinta da cidade são os antigos ascensores que sobem e descem os cerros. Coloridos, ferrugentos, velhos, uns mais perigosos que outros. Para os turistas, um transporte pitoresco ao passado; para mim, como para muita gente, um transporte diário casa/trabalho. Lá em cima, mais um mirador panorâmico abre as hostes às cortesias e ficções de namorados que desejam, também eles, viver no tempo em que chegaram pela primeira vez os marinheiros irlandeses em transatlânticos. Os transatlânticos continuam mas os namorados já não vivem de forma igual o amor. Agora são “pokemones”, a última febre que atingiu a juventude chilena (a origem deste verdadeiro fenómeno cultural, de dimensões surpreendentes, está no Japão). A vista é a de uma cidade densa, melting pot de cores, de tecidos urbanos apertados, esmigalhados, reescritos, “palimpsesto”, diriam os urbanistas ou os egípcios.

Chapas de casas onduladas e coloridas, grafittis, arte com espelhos sob a chuva torrencial (de um dia que, mais tarde, é registado como o dia de maior precipitação anual) ou o sol abrasador. A feira das pulgas ao domingo, a de verduras ao sábado (nunca vi fruta e legumes tão baratos). Urbe que não pára nunca, que respira e se asfixia, que se renova no meio do antigo, que se imagina como própria aos artistas, aos músicos, aos apaixonados eternos, aos coleccionadores, aos limpa-chaminés, aos que vivem do trabalho árduo ou de ficções.

Fui assaltada duas vezes. Primeiro generalizo, triste, mas depois observo que gente é “boa gente”. Abraça-me, diz-me que sou bonita, que sou corajosa, pergunta se não tenho medo, aconselha não andar sozinha nessa parte: “aí não passam carros”, “aí traficam”, “aí nem sonhes em passar”. Umas vezes arrisco e, mesmo sem me acontecer nada, arrependo-me a meio do caminho. Mas, em contrapartida, vejo o lado B…a gente que aqui vive, não vive apenas nos bairros seguros de Cerro Alegre ou Concepción. A gente vive também em bairros onde há verde de bosque meio difícil de desbravar, tipo favela, onde não chega a polícia, nas “quebradas” dos cerros, por onde desce toda a água. A gente vive a fumar, a beber e a comer desenfreadamente…maionese, sal e açúcar em tudo!

As pessoas da mercearia acostumam-se à minha presença mim, à minha cara. Sou residente, faço parte de um quotidiano flutuante. O homem que me vende a fruta já selecciona a que não está podre e deseja-me sempre “que le vaya bien”. Contudo, imagino, pressinto, que este bom trato que me dão é, em parte, porque sou estrangeira, fonte de sustento de uma cidade património mundial. O turismo massificado, ás vezes, até estas relações parece ter “forçado”. O turista norte-americano, alemão ou do norte da Europa acha tudo barato. O espanhol, o português e o italiano já fazem contas á vida… mas a crise parece que, por agora, passa ao largo do País.

 

Vou-me acostumando a um quotidiano novo e pergunto-me se um dia poderia viver aqui. É impossível não encontrar nesta cidade uma realidade que satisfaça a cada um e aos seus delírios mas, de alguma forma, reconheço um ritmo que me deixa necessidade de mar, de surfar já aqui ao lado.

 

 

Por Sofia Valente
A Sofia é uma surfista do Porto que está na América do Sul a fazer um ano do curso de arquitectura e, claro está, a viajar e a surfar sempre que pode.

 
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