Kit de Viagem

angkor cambodja

Sim, Sr Ministro

Como não visitar os templos de Angkor com um novo amigo e político do Cambodja

Gostava de ficar dois dias em Phnom Penh mas o meu calendário está demasiado apertado. Decido, por isso, deixar-me ficar na guest-house em que o minibus que fez o último troço da viagem desde Saigão nos deixou (mais um esquema) e comprar logo um bilhete no primeiro autocarro da manhã para Siem Reap, com o principal objectivo de visitar os templos de Angkor.

Fico contente quando chego ao escritório/terminal da companhia e vejo que é um autocarro comum, onde viajam maioritariamente pessoas locais, em vez de um transporte específico para turistas. No andar de baixo, onde normalmente também há assentos, vai a bagagem toda, incluindo instrumentos agrícolas, sacos de farinha e arroz e… duas motas! Os passageiros sobem ao segundo piso e uma “hospedeira” ajuda-os a encontrar o lugar marcado.

No lugar ao lado do meu, já está sentado um homem pouco mais velho que eu, bem vestido, de calças de fato e camisa clara lavada e passada, e uma pasta de documentos estilo profissional. Negócios em Siem Reap? – pergunto-me.

Cumprimento-o, sento-me e em poucos minutos começa a conversa. O meu companheiro de viagem passou os últimos anos fora do país, maioritariamente na Rússia, onde tirou uma licenciatura e um mestrado em Economia e mostra-se profundamente desiludido com o estado em que se encontra o Cambodja. A generalizada circulação do Dólar em vez do Rial, as condições humanas de higiene e saúde, o estado das estradas, a qualidade dos meios de transporte, etc… tudo aquilo que um bom político prometeria resolver num comício de campanha eleitoral.

– No teu país as mulheres são liberais?
– Como assim liberais?
– Quando te aproximas delas, elas falam contigo? Aqui não. Se quiseres conhecer alguma mulher tens que primeiro conhecer a família.
– É mesmo? Então, se eu meter conversa com uma, ela vira-me as costas? Amanhã vou experimentar!
– A ti não sei, talvez não. Como és turista, ela acha que não queres nada de mal. Mas se for eu, não fala comigo. Na Rússia é mais fácil. Lá, as mulheres bebem muita vodka. E assim, fica tudo mais fácil.

Rimo-nos sem demasiada maldade. Homens são homens em qualquer parte do mundo e, quando falha outro tema qualquer, futebol ou mulheres garantem sempre uma boa conversa.

Angkor Wat, Camboja

A visitar os templos de Angkor, no Cambodja.

 

Tenho curiosidade em saber que tipo de trabalho ele pretende e pode fazer agora que está de regresso. Diz-me que tem tido várias propostas de amigos para trabalhar como consultor e economista mas que prefere o que está a fazer agora e que são projectos que não quer abandonar. Conversamos principalmente sobre economia pública e politica internacional e fico ingenuamente surpreendido com o seu nível de conhecimento, claramente muito superior ao meu.

– Tenho um cargo recente no Ministério do Interior e quero seguir esta carreira, quero trabalhar na estruturação do país. Não vou mais para fora, quero aplicar aqui tudo o que aprendi.
– Quem sabe daqui uns anos não vejo nas notícias “novo chefe de governo do Cambodja” e posso dizer: “Eu conheço este gajo! Viajei com ele num autocarro para Siem Reap.”
– Quem sabe – responde-me com um sorriso modesto mas com uma forte determinação no olhar.

Pergunto-lhe se, em termos pessoais, estão a ser difíceis estes primeiros meses de volta a Phnom Penh. Se tem cá família e uma casa para o receber.

– Sim, tenho dois irmãos que vivem na cidade.
– E os teus pais? Vivem numa aldeia?
– Não tenho pais – respondeu-me com um ar mais pesado, desviando o olhar para a janela.

Ao atravessar aquelas estradas e aqueles “campos de morte” (literalmente killing fields), onde quase dois milhões de pessoas foram assassinadas, à porta fechada, sob a bandeira dos ideais de um fanático que sonhava construir “uma sociedade agrícola sem comércio, sem ciência, sem escolas, sem cultura, sem cidades, sem bens pessoais e até quase sem vida privada”, tive a percepção clara que o Chandara era um dos milhares de órfãos do Khmer Vermelho. Viria daí a sua genuína vontade de trabalhar “para o país”?

Á chegada a Siem Reap e por gentileza da guest-house de Phnom Penh, tenho à minha espera um tuk-tuk que tento, sem muito sucesso, evitar a todo o custo. À espera do meu companheiro está uma mulher bonita, de trajes muçulmanos, que ele me apresenta como namorada.

– Vem connosco. Cabemos os três na mota, não há problema.

Mas, com a bagagem, era quase impraticável e não quis sujeita-los a esse esforço.

– Anota o meu número de telemóvel então. Quando estiveres alojado, liga-me para nos encontrarmos no centro ou visitarmos juntos os templos de Angkor.

Passo-lhe o meu caderno de notas para a mão enquanto discuto com o motorista do tuk-tuk que quer levar-me para ver uma guest-house que eu já percebi ser mal localizada, e peço-lhe para escrever.

– OK, combinado. Depois eu ligo.

notas de Angkor e do Camboja

O meu caderno de viagem, com o número de telefone do Chandara.

 

Nunca cheguei a ligar. Por comodismo, porque me apetecia estar sozinho, para não gastar dinheiro… e por mais mil e uma razões que posso agora inventar. Não liguei, pronto. E visitei os templos sozinho, aborrecido e irritado com a máquina fotográfica nova que, vejam bem o meu azar, já está avariada.

Alguns dias mais tarde, já na Tailândia, vejo de relance uma notícia que passa na televisão do hotel e quase posso jurar que, em segunda linha, logo atrás de alguns senhores com ar importante, vejo o Chandara no meio do que me parece ser um evento ou uma conferência de imprensa.

– Ei, eu conheço aquele gajo! Viajei com ele num autocarro para Siem Reap.

 
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One Response to Sim, Sr Ministro

  1. João Leitão VIAGENS 31/01/2015 at 16:56 #

    és um super viajante! grande abraço

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