Kit de Viagem

cabalitos de totora em huanchaco peru

Faz frio a sul

Esta história de todos os taxistas e condutores de autocarros se benzerem antes de cada viagem começa a preocupar-me. Bem sei que, por estas bandas, são todos tementes a Deus mas quer-me parecer que é mais que isso. Quer-me parecer que eles entregam totalmente o seu destino na estrada a uma força maior, como se eles próprios fossem apenas máquinas pré-programadas, incapazes de lidar com uma situação imprevista. Uma força que impeça de apanharem com um camião desgovernado em cima, de um dos pneus carecas rebentar ou de adormecerem ao volante depois das três cervejas que mamaram.

No autocarro que me trouxe desde o Equador, a tripulação era constituída por um condutor, uma hospedeira e um segurança munido de metralhadora e colete à prova de balas. Na altura, fiquei com dúvidas se aquilo era bom ou mau sinal e, mais tarde, explicaram-me também o grande benefício dos autocarros de piso duplo: os assaltantes não conseguem entrar pelas janelas!

No táxi que me levou a Chicama, viajei eu no banco da frente, porque os brasileiros que iam comigo tinham medo e, de vez em quando, tinha que inventar uma pergunta qualquer para fazer ao Otto, o taxista, para ter a certeza que estava acordado. Tive que o avisar duas vezes para não atropelar dois cães! À terceira, estava uma pedra mesmo no meio da estrada, à vista de qualquer um, mas não lhe disse nada. Meu dito, meu feito: pumba! Ainda vi, pelo espelho, a tampa da jante a saltar e a rebolar para o meio do deserto.

– Devias também ter posto essa mochila no porão – diz-me o ajudante do autocarro que me leva, durante a noite, do calor tropical de Mancora para o frio invernal de Pacasmayo.

– Não, esta viaja sempre comigo – cometo a ingenuidade de lhe dizer que carrega o computador e a máquina fotográfica.

– Mais uma razão. No que vai no porão só eu é que mexo. Aí em cima, podem-te roubar enquanto estás a dormir.

Ó diabo! Onde é que eu me vim meter? As melhores empresas de autocarros no Peru têm bastante qualidade e são muito cuidadosas a nível de segurança. Em algumas, por exemplo, todos os passageiros são filmados à entrada e apenas se viaja de terminal a terminal, sem paragens na estrada para recolher passageiros. Características como “directo”, “bus-cama”, “doble piso”, dão alguma garantia prévia mas este bus em que viajo é apenas “regular”, o que quer dizer que pára em todos os pueblos e não há limite de passageiros até o corredor estar cheio de gente sentada no chão.

De forma dissimulada, prendo bem a mochila a um ferro de forma a não ser fácil tirá-la da bagageira superior mas, ainda assim, não consigo dormir direito e, a meio da viagem, trago-a para o meu colo e prendo uma das alças à minha perna direita. Fico aliviado quando, às 5:30 da manhã, chego ao meu destino e, depois de uma surfada matinal, meto-me debaixo dos dois cobertores que tenho na cama e durmo cinco horas seguidas.

No pico do Verão em Portugal eu começo a atravessar o frio, que me vai acompanhar até meados de Setembro. Estou razoavelmente preparado. Tenho calças, sweat-shirt e sapatilhas, tudo comprado em San Jose (Costa Rica) durante os dias de espera pelo passaporte. E o fato 4/3 e as botinhas de surf foram, conforme planeado, entregues pela FedEx, no meu hotel em Guayaquil (Equador). Só me falta comprar um casaco!

Já estava tão habituado a entrar na água apenas de calções e licra que agora, de fato, quase nem consigo remar tal é o peso que suporto nos braços. Sinto-me preso, gordo, como uma salsicha enfiada em vácuo num saco de borracha… e as primeiras ondas de cada surfada são todas para o lixo, porque as botinhas fazem-me tropeçar nos próprios pés quando me levanto. Para quem não entende o que é surfar de botinhas, digamos que é como calçar meias a um cão ou, numa versão mais erótica, fazer sexo com preservativo. A verdade, é que se perde toda a sensibilidade que os pés sobre a prancha transmitem e isso atrapalha os movimentos e requer habituação. Se fosse só pelo frio até as largava mas, na verdade, também ajudam muito nas caminhadas sobre as pedras em El Faro ou Chicama. Não tenho outro remédio senão habituar-me e rir-me sozinho das minhas quedas e posturas estranhas.

No Hotel La Estacion, a senhora da recepção lembra-se de mim, de ter cá estado em Abril do ano passado. Os preços subiram e não me pode fazer um grande desconto, porque a nova gerência não deixa, mas lá me vai oferecendo algum tempo de Internet ou um chazinho quando chego do surf. Está cá hospedado um chinês que não fala uma palavra de espanhol ou inglês. Pergunto-me como é que ele terá sequer conseguido chegar até cá mas o que importa é que, ao final do dia, a diversão é reunirmo-nos todos na recepção e tentar chegar a algum diálogo. É hilariante!

As previsões de surf para os próximos dias não são muito famosas. O mar vai estar relativamente pequeno e os melhores picos da zona precisam de algum tamanho para funcionar. El Faro é, provavelmente, a opção mais certeira mas tem estado com tanta corrente que faz com que cada sessão seja uma autêntica prova de esforço. Por outro lado, acho que já estou viciado em estar sempre “on-the-road”. Tento estudar alternativas imediatas… mas para os lados de Lima, onde entra mais ondulação, o tempo ainda está mais frio e de chuva; o ano passado já visitei Cusco, Machu Picchu, Lago Tititaca e todas essas atracções turísticas; no Chile, dão temperaturas na ordem dos 6-8 graus, o que me faz perder a coragem de continuar para sul.

Acho que vou ficar por aqui uns dias, neste quarto de dez Euros com vista para umas esquerdas cheias e manhosas, a surfar o que aparecer enquanto não entra um novo swell. Vou tratar de algumas burocracias ainda relativas ao assalto (seguros, bancos, bilhetes de avião), escrever à família, cortar o cabelo, comprar o casaco, trabalhar nos guias e, porque não, ficar a ver o ER, Friends e CSI nos canais por cabo! Afinal de contas, às vezes também sabe bem ficar “em casa”.

 

 

 
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