Kit de Viagem

Uma experiência numa ilha flutuante dos Uros

Não se comia carne e comíamos truta a quase todas as refeições. O que é que eu queria mais? Em Uros, as ilhas flutuantes do lago Titicaca, a vida é muito diferente do que poderia alguma vez imaginar. Deixei-me estar por lá e convidei Omar e Wilber para almoçar uma truta comigo. Maria preparou 3 trutas grelhadas excelentes. Comemos com as mãos, claro. Aqui não há talheres. Saboreamos as três fabulosas trutas e terminamos com um mate.

Em todas ilhas vivem mais de 500 pessoas, todas descendentes dos Aymaras, e continuam a comunicar entre eles em Aymara. Existem escolas, postos de correio e até polícia. O meu quarto era a dispensa da comida e das bugigangas vendidas aos turistas. Tinha uma manta estendida no chão de totora e nada mais. Durante a tarde conheci Dani, neto de Maria, 5 anos e muito bem disposto. Passou a ser o meu melhor amigo na ilha e com quem brinquei durante a tarde. Na ilha viviam 15 famílias e aproximadamente 40 pessoas. Não estava lá nenhum turista.

Pouco depois do almoço, depois de estar a falar com Juan Pablo, saí no barco de Omar para visitar as outras ilhas. Observei e tirei algumas fotos discretas. Voltei para a “minha” ilha e despedi-me de Omar e Wilber. O vento estava bom para regressarem a Chimu. Eu fiquei por lá a brincar com Dani. Tirei algumas fotografias fabulosas à envolvência e às pessoas. Existem muito poucos homens e os que existem já não vestem os fatos tradicionais Aymaras. As mulheres, em grande abundância, usam diariamente os seus fatos bordados, coloridos e as suas grandes e inúmeras saias. Nunca cortaram o cabelo e usam umas grandes tranças que chegam a passar a cintura. Tudo continua dentro do mais tradicional possível. Algumas ilhas estão fechadas aos turistas. A maioria da população é católica, embora conviva ainda com algumas tradições dos tempos dos Incas. Os Aymaras são anteriores aos Incas e este é o único local do lago Titicaca onde ainda existem puros Aymaras. Provavelmente será também o único lugar no mundo! E, eu, estava lá, fantástico! Às 15h30 começou a chover. Como não há nada que fazer fui-me deitar e continuar a ler o fabuloso livro do Garcia Marquez. Acompanhava com um jazz suave de que rapidamente desisti para que pudesse ouvir o barulho da chuva a cair na água do Titicaca.

Às 18h, Juan Pablo, acordou-me para comer uma sopa. Abasteci-me com o energético caldo e regressei à leitura. Voltei a adormecer. A água embalava-me de tal forma que só me apetecia dormir. Às 3h da manhã acordei com a bexiga cheia. Vim obrigatoriamente cá fora e fui surpreendido por uma fabulosa surpresa. O céu estava incrivelmente estrelado. Qualquer fotografia neste momento seria uma excelente fotografia mas nunca transmitiria a grandiosidade do momento. Pensei fazer umas longas exposições mas abandonei facilmente a ideia por duas razões essenciais. Primeiro, como a ilha se move e está constantemente a abanar, a fotografia iria ficar tremida. Segunda, o calor do saco-cama chamava-me. Voltei a adormecer facilmente e acordei às 5h da manhã, depois de mais de 12 horas de sono, com Dani a querer brincar comigo. O dia começava a raiar e as pessoas começavam a trabalhar. Abri os remelosos olhos acompanhado de um leite com canela. As mulheres já estavam agarradas ao fogão a preparar os fortes pequenos-almoços para os maridos dentro de potes de barro. Durante a noite, uma ilha tinha-se soltado e havia alguns barcos a transportar a ilha para o seu devido lugar. Como me informaram era uma situação vulgar. Dani pintava um livro com a primeira história bíblica da criação. Eu, fui dar uma ajuda no fogo enquanto Maria se penteava nas margens do lago. Estive a alimentar o fogão durante mais de 30 minutos, pois as longas trancas não são tarefa fácil de cuidar. Comi uma truta ao pequeno-almoço e a meio da manhã comi 5 peixes pequenos conhecidos por karachi. Pouco saborosos e com muitas espinhas. A truta do pequeno-almoço foi tomada na companhia de Dani, Ivan de 4 anos, Daisy de 10 anos e Ester de 11 anos. Excelentes companhias. Pediram-me para tirar inúmeras fotos e quiseram ouvir um pouco de música do meu Ipod. Coloquei-lhes a banda sonora do filme o Rei Leão. Hakuna Matata foi a música que, à vez, ouviram umas 50 vezes. As expressões, quando a musica deu pela primeira vez, eram fabulosas. Reconheceram a música. Afinal Puno não está assim tão longe. A alegria que transmitiram fez-me esboçar um grande sorriso.

O sol da manhã nascia forte e extremamente dourado. Os reflexos na totora eram simplesmente magníficos. Fui a uma das bermas da ilha para lavar a cara. Os primeiros turistas começavam a visitar a ilha. Chegaram-me a tirar fotografias. Cumprimentei-os em Inglês e ficaram interessadíssimos em saber se eu tinha dormido lá. Falei-lhes com imenso orgulho do que tinha vivido. Eles jamais experienciariam a mesma coisa. As suas roupas e artefactos digitais faziam crer que estavam noutra sintonia. Esperava pelo colectivo (aqui também há colectivos) para Amantani. O colectivo não chegava. Comi umas batatas molhadas num líquido que tinha água, terra e sal. Eles comem terra aqui e eu também quis experimentar. A terra vem das margens e come-se, depois de muito bem misturada e amassada com batatas cozidas. Saboroso quanto baste mas nada de fenomenal. Só o sal é que dava o sabor ao prato típico. Entretanto, ainda fui com Dani e o Ricardo dar uma volta de balsa. Passeámos um bocado para eu experimentar e achei aquele tipo de barco simplesmente fenomenal. Por volta das 10h, o colectivo ainda não tinha aparecido. Começaram-me a preparar dizendo que por vezes não havia colectivo, quando não havia passageiros suficientes ele não saía de Puno. Um barco de turistas estava parado na ilha do lado. Numa atitude reflexiva e rápida, Maria chamou-me. Meteu-me no seu barco e pôs-se a remar. Dani, obviamente como meu grande amigo, subiu também para o barco descalço. Encostou ao barco dos turistas. Negociei rapidamente um preço para Amantani e juntei-me ao tour organizado. Fiz questão de frisar que apenas queria boleia nada mais. José, o capitão, aceitou a minha entrada no barco. Despedi-me com pouco calor de Maria e disse um adeus insosso a Dani. Ele respondeu com a pequenina mão que muitas vezes tinha andado dada com a minha com um olhar de quem parecia não estar a perceber. Não percebi a emoção do momento e parti rumo a Amantani.

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