Kit de Viagem

zicatela puerto escondido

Dúvidas à parte

Mira Hermano que ola tenemos aca. Si surfeares un mar asi, ni que sea una sola vez, jamas la olvidaras. La Punta Perfecta, México.

Nunca mais me esqueci da legenda da foto que vi há mais de 12 anos numa revista de surf brasileira.

Chego a Puerto Escondido num estado lastimável. Uma confusão de horários fez-me perder o autocarro desde Acapulco, o que me obrigou a ficar uma noite e um dia na cidade, ao contrário do que tinha planeado e do que era minha vontade explicita! Venho com os pés em bolhas de tanto caminhar, com uma t-shirt de alguns dias no corpo e, pelo menos parece-me, cheio de terra da ponta dos cabelos às unhas dos pés.

A onda de Zicatela é tal e qual a descrevem. Uma buraqueira, ali vai-se para os tubos! Felizmente o mar está pequeno e, desse modo, posso experimentar dar umas voltas no carrossel. Dou a primeira entrada com a 6’1’’ mas rapidamente percebo que, independentemente do tamanho aparente, preciso de alguma coisa mais sólida debaixo dos pés. No intervalo dos sets, as ondas são bem divertidas. Rápidas, com drops fantásticos, tubos e ainda uma manobra bem forte, se se conseguir ir a tempo. Nos sets, já me assusto um bocado quando tenho que remar vigorosamente para fugir à porrada, que quando acerta não é nada meiga, e já tiro a prancha muitas vezes quando olho para baixo antes de dropar. Mais um metro em cima e isto seria assustador! A “cidade” não é grande espiga e o ambiente tende a fugir um bocado para o surfista pé-de-chinelo, bungalow barato, refeição poupada e, se houver ocasião, uma mitrada ou outra a um viajante menos atento. Mas, ainda assim, está-se bem. São dias de surf de água quente à porta de casa, relax total, fins de tarde bonitos e, aqui e ali, uma mamasita ou outra!

Estou plenamente convencido que La Punta só começa a quebrar quando Zicatela começa a ficar grande. Foi isso que li em todo o lado, foi o que os meus amigos que já cá estiveram me disseram, foi o que ouvi em conversa dentro de água. Ainda assim, todos os dias tento espreitar com o monóculo para ver se vejo espumas a bater nas rochas e, num final de tarde, decido caminhar pela praia até conseguir ter uma noção mais clara. De facto, não parece que esteja a quebrar.

No último dia perco a vergonha. Viro-me para aquele local com cara de poucos amigos, que me gamou uma onda no dia anterior, e pergunto.

– Sim, com este tamanho é capaz de já estar a dar. Não lá fora, no terceiro pico, mas no inside já deve estar. Pero muy chiquita.

Não era essa a resposta que eu esperava, que eu queria. Eu queria que ele me tivesse dito algo como “Não, nem pensar! Aquilo só dá com o mar bem maior”. Eu queria não ter ficado a matutar naquilo e a pôr em causa os dias que passei em Zicatela a tentar meter-me dentro dos tubos (meter até metia, o problema era sair). E as tardes de on-shore sem fazer nada, apenas à espera que o vento caísse para dar outra entrada de final de dia.

Bolas, será que fui assim tão menino!? Ainda penso ir até lá de táxi, só para partir mais descansado. Mas seria uma estupidez… já tenho tudo arrumado, o táxi iria custar-me mais do dobro do que a viagem de autocarro para Huatulco, ponto de ataque para “aquela praia que é um secret spot onde realizaram um WCT o ano passado mas todos sabem onde fica” e, honestamente, não me apetece prolongar a minha estadia aqui.

Deixo Puerto Escondido com um sabor meio amargo e com uma dúvida terrível que me vai assombrar nos próximos dias. Mas, também, com mais uma lição. Provavelmente não estava a dar. Quase de certeza que não. Mas… e se estivesse? São sempre as dúvidas que me consomem.

 

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