Kit de Viagem

Chegada a Cusco, o umbigo do mundo

Plaza de Armas, CuscoAcordei cedo no dia seguinte para começar a escrever este relato. Estive na internet a falar com algumas pessoas e marquei o meu bilhete para essa noite rumo a Cusco, a próxima cidade. Marlon marcou-me o bilhete a partir do hotel e passei a tarde sem fazer nada de especial. Abandonei Arequipa ao final da tarde rumo a Cusco. Havia duas camionetas para Cusco, uma para turistas e uma de peruanos. Fui obviamente com os peruanos. Demorava apenas 10 horas ao contrário das 6h da camioneta dos turistas. Comparada com os outros transportes públicos, este tinha bastante qualidade. As janelas fechavam e os bancos reclinavam. Ao meu lado, uma senhora de idade. Como tinha chegado muito tarde ao terminal, não tinha tido tempo de jantar. Comprei à pressa uma empanada, dois pães, um saco de qualquer coisa como pipocas e um iogurte líquido de meio litro, que seria o meu pesadelo desta viagem.

Tendo em conta as experiências anteriores, levei o saco-cama comigo e roupa suficiente para não ter frio. Começou a passar um filme dobrado nos 3 televisores (que luxo!) e eu preferi continuar a ler os “Cem anos de solidão”. A garrafa de iogurte estava ao lado das botas e da mochila pequena no chão. Os solavancos da estrada, embora alcatroada, tombaram o iogurte e provoquei uma bela cagada no chão. Sujei as botas todas e a mochila. Os peruanos foram suficientemente gentis para não fazer qualquer comentário ou proporcionar algum olhar incómodo. A luz já tinha ido abaixo e já havia muita gente a dormir.

Cheguei a Cusco e ainda era noite. Recolhi a mochila pequena, cheia de iogurte, e a mochila grande, que estava a salvo por estar guardada no porta-bagagem da camioneta. Sentei-me no chão a fumar um cigarro e a limpar um pouco a mochila com o resto de papel higiénico que ainda tinha. Ficou um pouco melhor mas continuava encardida. Libertava um cheiro pestilento inacreditável. Apanhei um táxi, que me tentou enganar, e cheguei à conclusão que todos os taxistas em todos os cantos do mundo enganam os turistas. Fui para a Hopedagem Inka, em San Blas. San Blas é o bairro artesanal de Cusco. O trânsito é fechado aos automóveis e em todos os cantos há lojas de artesanato típicas e pequenas mercearias intercaladas com restaurantes e bares caros. O hotel era fantástico, com uma fantástica vista para as montanhas e um anfitrião fabuloso. Apresentou-se como Yuri, o nome do russo que chegou outrora ao espaço, como ele fez questão de afirmar. Tem 23 anos e ofereceu-me o pequeno-almoço.

Cusco é a mais turística das cidades peruanas. A praça central é extremamente arranjada e nesse dia contava com um desfile militar. Era ver todos engomadinhos em fatos verdes escuros com botões de punho dourados a contrastar com a pobreza das redondezas. Por todos os lados, descendentes incas, acompanhados por lamas, posam para fotografias em troca de alguns Soles. As mulheres carregam as crianças mais pequenas nas costas presas com as mantas coloridas. Vende-se muito artesanato e as crianças andam a dar dicas turísticas à espera de algumas moedas. Tudo é de pedra e os edifícios coloniais são extremamente bonitos e arranjados. Muitas varandas de madeira coroam a praça que é presidida por duas vistosas bandeiras, a de Cusco e a do Peru. Cusco, agora conhecida por Qosqo foi em tempos a capital do Peru e o centro do império inca. Foi considerado pelos incas, como o umbigo do mundo. Fala-se quechua nas ruas e os trajes utilizados, embora diferentes dos de Arequipa, são extremamente coloridos e bonitos. Há muita pobreza ocultada por fantásticos restaurantes e cafés. Em Qosqo encontra-se de tudo. Há numerosas actividades para oferecer e em todas as esquinas há agências de viagens de aventura.

Numa delas, agendei a minha viagem pelo Inca Trail rumo ao Macchu Picchu. Chama-se Ukukus Trek e amanhã partirei ás 8h rumo ao último resquício Inca conhecido e às mais famosas ruínas do continente americano. Parto amanhã para 3 dias de trilho e vou com um guia porque é obrigatório. Curiosamente, o guia vai caminhar sozinho comigo porque eu quero chegar mais rápido do que os outros. Não é uma questão de me armar em herói. A questão é que o tempo está a ficar curto e preciso rapidamente de sair do Peru rumo ao Chile.

 
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