Kit de Viagem

Aprendendo a viajar

Caminhamos pela praia de Punta Choros e perguntamos aos pescadores se nos podem levar a uma das ilhas que está à frente deste pueblo. Estamos num lugar com uma situação geográfica muito parecida à de Peniche e as Berlengas, só que aqui com mais ilhas, que são reservas ecológicas, também elas pouco visitadas.

Queremos chegar à Isla Damas, onde se pode avistar os golfinhos mas, porque é fim de Inverno, não há turistas suficientes e não podemos pagar o barco só as duas. No dia seguinte tentamos baixar o preço mas o pescador explica-nos que não pode mais. Caso contrário, além de não ter lucro, não vai chegar nem para pagar a gasolina do barco. Ficamo-nos pelo pequeno pueblo mais uns dias.

Aproveitamos para passear, comemos na praia nuns dias mais cinzentos, guardamos conchas das praias onde nem há areia – chamam-se “conchales” – e são autênticos cemitérios de conchas que deitam os pescadores. Perdemos horas a observar as conchas, a escolher as melhores, a ver o dia passar, a ver as ilhas verdes ao longe, neste fim de Inverno.

No último dia, antes de virmos embora, a senhora das cabanas oferece-nos um almoço de última hora. Quer que nos alimentemos, cuida-nos, gostou de nós… não é muito normal duas meninas viajarem no Inverno por estas bandas. Esta foi mais uma amostra da hospitalidade com que várias pessoas no Chile me receberam, e que me foi ajudando a redefinir o meu próprio conceito de hospitalidade, de amizade, de viagem, de relação duradoura, e quiçá, de tempo. Alguém que se dedica a nós, que inevitavelmente somos seres de passagem, (a condição de viajante é também a de não permanecer num lugar muito tempo), como se fossemos filhos, preocupando-se connosco, a nossa segurança e bem-estar, sem esperar algo em troca, ou seja, “dando” desinteressadamente, é alguém hospitaleiro. Esta situação pode fundir-se, por vezes, com algum interesse comercial ou turístico que a pessoa tenha por trás, mas nos casos de muita gente que me foi recebendo e albergando mais tarde, fico contente por poder dizer que não havia qualquer “lucro” ao receber-me, o que explica o “bom coração” de muita gente que tive sorte ao conhecer.

Eu e a Rafaela tínhamos que regressar e, de novo, fomos de boleia até ao cruzamento, onde um camionista acordou connosco levar-nos até ao terminal de La Serena. Mas os meus planos mudaram ao ver que, seguindo o seu trajecto, o camionista nos poderia deixar em Los Vilos, um terminal secundário mais próximo de Valparaíso. A Rafaela acabou por aceitar, em face da minha insistência, que fossemos com ele até mais ao sul e em Los Vilos apanhávamos um bus para casa. Só que o tema da conversa do camionista mudou quando ficou de noite. Passámos do questionário habitual, da conversa sobre a música, sobre o País para as queixas de um homem que já não suporta a mulher, que quer deixar a sua casa, que de vez em quando “dá uma escapadela”. Tudo isto quando começou a anoitecer e já tínhamos passado La Serena, ou seja, restava-nos aguentar e chegar ao tal terminal mais a sul. Eu não devia ter insistido com a Rafaela, estávamos as duas com medo, e eu, mais que tudo, estava arrependida por ter ido com tanto “excesso de confiança”. Depois de paragens para ir ao wc, de uma viagem curta que se tornou longa e dura para nós, lá chegámos ao dito terminal. O camionista não nos queria deixar em paz, tive que inventar-lhe uma história de que estavam os nossos namorados à espera. Além de tudo, chegamos mais tarde que o previsto. Eram duas da manhã, o terminal fechou à uma. As senhoras da limpeza do terminal oferecem-nos o pátio da sua casa para acampar pois este lugar, segundo elas, é perigoso para duas mulheres sozinhas, não devíamos ficar ali no meio da estrada. Insisto de novo com a Rafaela: somos duas, podemos esperar que passe uma camioneta que vem de Calama, alguém me disse que ia passar. Quando passasse só tínhamos que fazer sinais para pararem, porque o terminal estava fechado, aqui não iam parar. E assim foi. Esperámos e desesperámos, com algum frio, fome e pouco dinheiro junto às vendas de empanadas e café que se mantinham com camionistas. Ouvimos, caladas, alguns piropos, vimos passar vários buses que não ligaram aos nossos sinais até que, finalmente, um nos levou até Viña del Mar.

Aprendemos, aprendi. É difícil dizer que lição aprendi porque, mais uma vez, os riscos de corremos não dependem somente de quanto nos expomos a eles (embora a probabilidade de acontecer algum problema aumente se nos expomos mais vezes). De novo, se fossemos homens, tudo seria diferente. O outro camionista que nos levou era cavalheiro e educado. Este era perigoso.

Depois deste episódio decidi só andar à boleia em núcleos pequenos, em pequenas aldeias, e só dentro do Chile. Nunca mais voltei a arrepender-me por pedir boleia a estranhos, e ainda bem, porque entretanto a minha amiga Rafaela voltou para o Brasil e eu segui a viajar, só que sozinha. Creio que isto fazia parte do que eu tinha que passar para poder aprender a viajar.

 

 

 

Por Sofia Valente
A Sofia é uma surfista do Porto que está na América do Sul a fazer um ano do curso de arquitectura e, claro está, a viajar e a surfar sempre que pode.

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